domingo, 22 de março de 2020

Quarentena


Da minha janela vejo os morros distantes, mas não tão distantes que possam silenciar o som dos tiros que por vezes existem. De Quintino localizo a Serrinha. E o que vem à mente é a quadra do Império Serrano com baldes de cerveja, pessoas circulando, cantando e conversando, o calor humano provocado pela quantidade de gente. Faz tempo que não vou ao Império. Vai demorar pra eu pisar numa quadra. 

Da janela vejo a rua mais vazia, mas também o bar aberto com algumas pessoas conversando, como se o mundo não estivesse ruindo. O sol não deixa de surgir, mas é difícil aproveitá-lo. Não se pode vestir o short jeans, a blusa, nem colocar o brinco e o batom, calçar o chinelo e virar a chave para pegar o elevador até a portaria. A rua não me espera, sossegada. Algumas motos passam pela Suburbana (a gente não fala Dom Hélder Câmara), uma sirene inquieta para por perto, as janelas do prédio da frente parecem mais cheias. O ventilador ligado, o filme preferido do meu pai na televisão, o bordado da minha vó, o descanso aflito da minha mãe, tudo isso passa pelos meus olhos e eu agradeço por estarmos juntos, ainda que com medo, ainda que acordando assustada, ainda que sentindo os efeitos físicos e mentais de todo esse longo processo. Pessoas próximas a mim ainda precisam trabalhar, outras ainda não tiveram uma noção mais real da gravidade, e talvez a nossa agonia maior seja não ter controle sobre quem amamos, como sempre na vida. Mas sobretudo agora. 

Tenho minha fé e minhas crenças, todas baseadas nas minhas próprias experiências, em tudo que já senti e sinto. Em outras janelas existe gente angustiada também. Lá no morro, onde a vista não alcança o detalhe, o amor dói no peito, a vida aflige, o medo faz a reza. Um atabaque, agora em silêncio, pode ser ouvido quando fechamos os olhos. Da janela sinto medo, vejo de perto o que não posso abraçar. Há mesas e cadeiras sozinhas nas calçadas, um vazio nos ônibus. Quando ouço a música que há dias está na minha cabeça, penso nas palhas que cobrem o rosto. Um conforto na sabedoria. Olho pra cima, as nuvens continuam andando sem pressa, despreocupadas. Fecho a janela e volto pra viagem à roda do meu quarto. Mais tarde vou tentar ler um livro.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Disritmia

Foto: Thaís Velloso

Tô sentada numa mesa de bar e um cara ouve Disritmia sem parar. Tô com vontade de mijar. Penso no homem que mais amei na vida. Meu copo tá cheio, bebo sei lá por quê. Hoje vi que tenho saturno em aquário e tô fodida, foi o que pensei de imediato. Um menino veio me vender amendoim, ri com ele, dei parabéns porque foi seu aniversário recentemente. Cheguei aqui no bar e pensei que gosto da vida que eu tenho. Fiz o que sei, amo os meus e detesto poucos. Gosto da rua, de amores de calçada e de relembrar o passado. Mas hoje me dei conta de que relembrar o que passou é um hábito, não um prazer. Sei lá, todo mundo sofre. O cara ainda tá ouvindo Disritmia. É claro que ele queria estar com alguém. Eu sigo bebendo. Não sei com quem eu queria estar. Quem eu amei não dá. Hoje em dia não amo mais, sem covardia, sem lamento, sem verdade. A vida é um samba de Aldir Blanc cantado numa tarde vazia, com o copo cheio. Sou do subúrbio, vibro com alguém cantando os exus catimbeiros, com a cerveja gelada e o dinheiro na conta. Já fui capaz de fazer loucura por alguém. Já fiz. Já me envergonhei. Já dormi e acordei achando que a vida é boa pra caralho. Já dormi e acordei achando que a vida não valia a pena. Vi que valia. Me encontro nas calçadas, nas vielas, nos becos, na ralé. Tenho preguiça dos que se sentem. Não sei lidar com elogio. Sou o Tempo, sou Oxum, sou Ogum me amparando. Há uma correnteza que me leva serena e outra que me arrasta. Sou o samba de Paulinho da Viola na madrugada de choro escondido, sou a letra de Nei Lopes num sábado de manhã, sou a voz de quem ama num peito batendo quando se acorda. Sou amor e ninguém vê. Que se fodam os que não enxergam. Sou beijo que se entrega e corpo que se dá no meio da noite. Quem tá comigo não dorme, mas acorda sorrindo. Há um riso que me embala. Sou o rio que corre, intenso e devagar. Eu preciso de um tempo grande num mundo onde toda gente é desconfiança. Quem chega até mim vê a cachoeira e o carinho. Disritmia. De vez em quando eu tenho. De vez em quando eu curo.