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domingo, 14 de fevereiro de 2021

Domingo de Carnaval


Passaram a sexta e o sábado de Carnaval. Acorda tarde, pisa no glitter espalhado pelo chão da casa, separa a camisa da escola pra vestir à noite, coloca a playlist com os sambas-enredo das agremiações do dia, pensa no desfile que mais quer ver, prepara a bolsa térmica, separa o cartão do metrô e os ingressos e, quando se dá conta, já é hora de sair de casa novamente.

A caminho da Sapucaí, comenta com amigas e amigos as expectativas pro primeiro dia do Especial e as impressões sobre os desfiles do Acesso; sente o coração embriagado pela sensação de estar, ao mesmo tempo, em um dia que marca o início das apresentações e a metade de todas elas; canta o samba da própria escola, pedindo, como se fosse reza, que ela venha da melhor maneira; lembra os ensaios de rua e sorri, confiante no grito que chama a vitória.

Chegando ao Centro, pensa nos domingos de bloco, que contam com outra dinâmica: acordar bem cedo. Por ali, a rua se enche de pessoas que decidem não falar de tristeza e então desfilam com seus estandartes, revelam as fantasias compradas ou confeccionadas dias antes e espalham confetes, espumas, serpentinas. Nas proximidades do Sambódromo, componentes e torcedores com ingressos pendurados no pescoço carregam fantasias, instrumentos, cervejas, salgadinhos, espetinhos, cachorro-quente, refrigerante, água e capa de chuva. Com a certeza de que um lindo dia se anuncia, presenciam, enfim, o terceiro dia de Sambódromo, o primeiro de desfile do Grupo Especial.

No ano em que nasci, minha escola, a Vila Isabel, desfilou no domingo. Em 2006, foi campeã após ter passado pela Avenida no domingo. E foi também se apresentando no domingo que a Vila poderia ter conquistado mais um título, em 2012. O domingo de Carnaval, portanto, é um dia peculiar, ainda mais se considerarmos que, diferentemente da segunda-feira, tem mais chances de ser surpreendente. Isso porque, sabemos, pouquíssimas foram as vezes em que uma escola de domingo levantou a taça, fator que faz com que muitos comemorem quando sua escola é sorteada pra segunda.

Enquanto seleciono essas memórias dos domingos de carnaval, penso no Sambódromo vazio. Hoje seria dia de não notar o corpo cansado da sexta e do sábado na arquibancada e voltar mais uma vez pro melhor lugar da cidade: “Atenção, Sapucaí!”. É esse o instante da tensão desmedida, da alegria eufórica, da curiosidade, da concentração. O esquenta da bateria, a primeira escola pronta pra entrar, as alegorias encaminhadas, as bandeiras tremulando no setor 1…

Apesar de ter noção de que “nada se acaba quando é feito por paixão”, como afirma a letra de “Vitória da Ilusão”, é impossível não estar saudosista e comovida em um Carnaval que nem pôde começar, por todos os motivos que isso envolve. Este fevereiro esquisito, em que o domingo de Carnaval não tem o mesmo significado que comumente tem para nós, é tempo de nos atentarmos a mais um verso de Adir Blanc: “Das cinzas à ressurreição!”. Afinal, num dia que se assemelha a uma quarta de cinzas sem apuração, é preciso abrir alas para a esperança.

Com grandes enredos na cabeça e prontos para renascer das cinzas, plantaremos de novo o arvoredo quando enfim chegar o Carnaval. Enquanto a gente sofre com a espera, o controle remoto aponta pra televisão e seleciona os desfiles antigos que fazem a gente cantar e vibrar na sala de casa. Tão bonita, a nossa escola…

Publicado originalmente no site da Rádio Arquibancada.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Carta a um grande amor, o Carnaval

Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

Se estivéssemos juntos agora, no quarto estariam espalhados meus shorts coloridos, o glitter azul sobre a escrivaninha e a fantasia dos blocos de pré-carnaval já lavadas depois de tanto suor, gotas de cerveja, água e lama do asfalto sujo, além dos confetes que grudam para só descolarem da roupa no banheiro de casa. Os ingressos da Sapucaí, já comprados há muitos dias, estariam guardados onde eu sempre deixo, na lateral do armário. Minha ansiedade, que sempre é grande, estaria triplicada; Martinho seria homenageado pela Vila em poucos dias, afinal. 

Todos os outros anos eu repetia: não sei o que faria da vida se não tivesse você em fevereiro ou março, se não acompanhasse você até fevereiro ou março. Como prova, fiquei perdida desde o último Carnaval, sem ter direção que me encaminhasse para as quadras, para os ensaios, para o Mercadão de Madureira, para o Centro da Cidade e para os lugares onde ouço samba-enredo e bebo devagar minha cerveja. Muita coisa mudou em mim recentemente, é verdade, mas nada que diga respeito a você. Porque faz parte da minha essência perceber e gostar da mesma sensação boa de criança ao ver a fantasia de um grupo de bate-bolas, os portões das casas com serpentinas penduradas, as espumas espalhadas pelo chão, a rua inteira na minha frente pra eu andar, andar e andar, sem pensar em nada - ou pensando em tudo. 

Sei lá como é não estar por perto este ano. Fantasias guardadas, copos vazios, a lateral do armário sem ingresso algum guardado. Passar o início do ano sem andar de chinelo na Vinte e Oito enquanto os carros não transitam mais e toda a rua se enche de instrumentos de bateria, carro de som, torcedores e componentes é um troço muito esquisito. Ficar janeiro todo sem engatar um ensaio de escola de samba no outro é uma novidade que machuca, ainda que seja evidentemente necessária. Por aqui andamos muito machucados, alguns mais e outros menos, mas todos, sim, enfrentando os próprios medos - ou fugindo deles. Ando com uma saudade enorme da alegria, aquela que só você me traz, e quando existe algo ou alguém que nos proporciona uma alegria única, é porque tem bastante amor nisso aí. Ê, Carnaval, que falta que tu faz...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Vila e a rua

Foto: Diego Mendes/ Vila Isabel

Depois de pensar bastante nos motivos que fazem meu coração ser branco e azul, arrisco dizer que o que mais me comoveu na Vila Isabel não foi o momento de entrar na quadra pela primeira vez, mas o deslumbramento de estar com a escola na rua. Chegar à Vinte e Oito de Setembro em dia de ensaio, ou mesmo abrir a primeira cerveja do lado de fora da quadra em noite de disputa de samba, faz a gente se emocionar com o espaço, os componentes, os torcedores.

Os integrantes da bateria com seus instrumentos no meio da rua, o fluxo de carros substituído pelo de pessoas, os bares cheios horas antes de o carro de som ser ligado, as barracas de churrasquinho nas calçadas musicais, os acenos da vizinhança que vibra das janelas e das varandas, tudo isso fez parte do meu encanto pelo “povo do samba”. Naquele momento, eu percebi a relação peculiar da Vila com a rua, uma ligação que faz ainda mais sentido ao lembrarmos que, mesmo no ano de Kizomba, a escola ainda não tinha quadra e ensaiava a céu aberto.

O chão da Vila Isabel, que é forte, vem de muito tempo. E é ele que me remete ao trecho do samba de Moacyr Luz e Martinho: “Vila Isabel, meu Deus, como tu és de chorar de emoção…”. Foi em 2013 que chorei de emoção após acompanhar cada nota da apuração na quadra e ver ser declarada a vitória, com as bênçãos de Noel. Comemorar o campeonato de nossa escola por si só já é emocionante, mas fazer isso depois de ter presenciado o preparo, o empenho e a garra de uma comunidade nos projeta para uma dimensão incomparável, em que o mundo todo passa a caber nos versos “é o morro no asfalto duas vezes: uma pra ser campeão e a outra pra comemorar”.

Conheci a Vila de perto nos preparativos para o Carnaval de 2011. A partir daí, muitas vezes estive no aquecimento da bateria e fui atrás da Swingueira nos ensaios. A certeza da minha paixão por essa escola só crescia todas as vezes em que o Tinga, em frente ao antigo Petisco, puxava “Sou da Vila, não tem jeito” e nossas vozes se somavam à dele. Cantando isso no meio da multidão, qualquer vilaisabelense renasce das cinzas e enxerga com mais nitidez a beleza da vida no menino que, aos poucos anos de idade, caminha com um tamborim na mão, embalado pelo passo cambaleante da criança que aprendeu recentemente a andar mas já sabe amar uma escola.

Além de tudo, os três campeonatos da Vila traduzem muito do que faz parte de mim: a sede de que o Apartheid enfim se destrua; o amor pela América Latina; e o desejo de que as terras sejam partilhadas, como bem apontou Martinho no verso “progredir, partilhar, proteger”. Foi a Vila Isabel, feita de raízes que ecoam o grito forte dos Palmares e guiada pela lua de Luanda, que me ensinou que vale muito viver o Carnaval o ano inteiro pra tudo se acabar na quarta-feira.

domingo, 18 de outubro de 2020

Fantasia de bate-bola

Foto: Thaís Velloso

Na infância, comentei com a família que queria uma fantasia de bate-bola. Minha avó paterna quase caiu pra trás, indignada, com uma expressão de estranhamento que me deixou na cabeça aquela interrogação que surge nas personagens de história em quadrinhos. Que bate-bola o quê! Isso é coisa de menino! Minha mãe desconversou, ninguém me levou a sério e a fantasia de bate-bola nunca fez parte do meu carnaval.

Me lembrei desse episódio quando li uma reportagem sobre mulheres ganhando esse espaço e se fantasiando com máscaras, bolas e sombrinhas. Começaram a participar dos grupos com fantasias denominadas femininas, mas depois, enfim, passaram a vestir o traje completo dos bate-bolas. Ao ler isso, vibrei por saber que muitas meninas hoje em dia, se quiserem brincar carnaval dessa forma, podem ter sua vontade realizada com mais facilidade.

A mesma reportagem ressaltava que, vestidas de bate-bola, as mulheres se libertavam das imposições que sofriam, de modo que a máscara, por esconder suas identidades, possibilitava-lhes dar cambalhotas, rolar no chão, pular e dançar. Ou seja: escondidas naqueles panos, podiam viver; irreconhecíveis, dentro de uma fantasia que permitia serem confundidas com homens, tinham o crivo social necessário para fazer o que desejavam, sem julgamentos.

A criança que eu fui ainda se espanta com este mundo em que mulher só pode pular, dançar, rolar no chão e dar cambalhota – em suma, se divertir – sem ser cobrada se estiver sob o anonimato de uma máscara. E nós percebemos isso desde cedo. O que eu buscava com a fantasia de bate-bola, afinal, era a alegria.


* Publicado na coletânea Prêmio Off Flip 2023: crônicas

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Tantinho da Mangueira


Era um dia em que a rua estava vazia. Enquanto os meninos brincavam cá dentro, aproveitei para espiar o que se passava do lado de fora. Lá embaixo alguns carros cruzavam o viaduto. Uma birosca aberta com o baralho sobre a mesa, duas crianças caminhando juntas, sacos de lixo amontoados no poste. Quando me inclinei para deixar a janela, fitei, na do vizinho, a bandeira presa na grade. As cores eram nossas. E imediatamente me veio o sonho que eu havia sonhado: era o partido alto, o desafio do improviso, o samba de terreiro, o quintal unindo o canto e o falatório, as palmas que firmavam, a ala de compositores presente; era a memória em verde e rosa.

E foi então que, com mais nitidez, puxei dessa memória: girava a baiana na quadra, nasceu o menino. Ainda pequeno, conheceu a bateria antes do colégio — a primeira escola, como já diz o nome, foi a Estação Primeira. E no sonho tinha uma rua, acho que uma avenida, bem extensa, toda enfeitada, com um tapete no meio, um tapete verde e rosa, para alguém passar em direção ao ponto onde minha vista não chegava. E eu vi o menino ao lado das lavadeiras, ao lado de sua mãe, no tanque perto do Buraco Quente. Em horas de trabalho, elas cantavam. E o menino, ele prestava atenção, aprendia com as mulheres.

Era a baiana, o menino, a bateria, a ala dos compositores. Era uma nação que ele guardava. Da outra ponta do tapete verde e rosa, onde eu não conseguia ver bem, o som da surdo um preparava o corredor iluminado. Até que soprou o vento, revelando os baluartes à espera. Naquela passarela, o verde e o rosa do tapete cintilando, abriu-se caminho para ele passar. E vi o ponto mais alto do morro, o senhor então menino, o menino agora mais velho. Vinha rompendo o dia. Xangô veio ver. Era a memória em verde e rosa. Com o surdo um quase em silêncio, no diminutivo feito o seu nome, ele surgiu. Deixa o Tantinho passar!

sábado, 4 de abril de 2020

Quatro de abril


Ela acordou pouco antes das seis. A consulta estava marcada para antes das nove. Fez café, esquentou o pão, viu que a geleia de morango tinha acabado, regou as plantas e pensou em ir pro banho. Ouviu, mesmo de longe, uma melodia que não lhe era indiferente. Caminhou devagar em direção à janela. A cortina branca do vizinho esvoaçava, balançando serenamente. Aos poucos reconhecia a letra, o que fez com que começasse a batucar no parapeito, e recordava, de modo detalhado, o ano para o qual se deixava levar. 

O vizinho, que também acordara cedo, ouvia o samba de 1993. Naquela época ela já contava bons anos de desfile como baiana da escola. Lembrou que o compositor até foi intérprete, mas só nesse ano em que as vozes vindas do Morro dos Macacos sopravam o antídoto para pôr fim a qualquer mal: pra salvar a geração só esperança e muito amor. 

Não podia se atrasar para a consulta, mas as recordações não cessavam. Sua neta havia acabado de nascer, portanto era a primeira vez que entrava na Avenida tendo o título de avó, as lágrimas descendo toda vez que cantava a criança é a esperança de Oxalá. E até hoje se emocionava com essa possibilidade de tudo, em meio a ruínas, ser resgatado: 

Então foram abertos os caminhos
E a inocência entrou no templo da criação
Lá os guias protetores do planeta
Colocaram o futuro em suas mãos 

Cantou o samba todo, o café esfriando na xícara, o barulho dos passarinhos cada vez menor. No dia do nascimento da neta, teve a sensação exata, ao olhar nos olhinhos miúdos da pequena, de estar diante da esperança de Oxalá. Era cantando Gbala que embalava a menina no colo, admirando o quartinho todo branco e azul. Sabia que, quando ela crescesse mais um pouco, entenderia o amor ao pisar descalça no chão da quadra. 

Tomou um banho rápido e vestiu a roupa que já estava separada. O vizinho repetiu o samba. Faltava meia hora para o jogo de búzios e ela não desmarcaria porque a última consulta tinha sido em dezembro. Gostava de acalmar o coração, de saber o que estava por vir. Fechou a porta cantarolando Gbala, lembrando a neta pequenininha, feliz por hoje a menina ser também torcedora da escola, apaixonada a ponto de chorar ao serem campeãs e de ter a resposta certa pra qualquer um que chegasse falando de outra agremiação: sou da Vila, não tem jeito. 

Quando guardou a chave na bolsa e prestou atenção no símbolo do chaveiro, só aí se deu conta. Era quatro de abril. Anos e anos atrás, em 1946, estava fundada a Vila Isabel. Então, foram abertos os caminhos.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

África: o baobá da vida Ilê Ifé


Dentre os muitos sambas bons que tem a Beija-Flor, um dos meus preferidos é o que conduziu a escola no desfile campeão de 2007 - composição de Claudio Russo, J. Veloso, Gilson Dr. e Carlinhos do Detran -, do qual destaco um belíssimo trecho: "Agoyê, o mundo deve o perdão/ A quem sangrou pela história/ Áfricas de lutas e de glórias". 

Por ser de lutas e glórias, em 25 de maio a África é celebrada. O dia foi escolhido devido à criação da Organização da Unidade Africana (OUA) na Etiópia, na data de 25 de maio de 1963, a fim de defender e emancipar o continente. Nove anos depois, foi decidido pela ONU que esse passaria a ser o dia da África. E o trecho do samba da escola nilopolitana assim se confirma, já que a celebração é uma forma de resgatar a memória dessa luta pela independência a partir do combate à colonização europeia e ao Apartheid. 

Sábado passado, portanto 25 de maio de 2019, um evento comemorando o aniversário de Madureira acabou se tornando, para mim e para todos os que se reuniram na Arena Carioca Fernando Torres, no Parque Madureira, também a comemoração do Dia da África. Uma roda de samba que tem Nei Lopes e Zé Luiz do Império como convidados, além de ser coisa fina, sinhá, une a resistência do samba - desde sempre atacado pelos mesmos que naturalizam a absurda depredação de terreiros - e a identidade negra que os dois representam. Cantando "Morrendo de saudade", "E eu não fui convidado", "Malandros maneiros" e "Senhora liberdade", pareciam ter transformado a roda numa aula em que a didática se revelou no batuque, na criança que bateu palma, nas vozes que cantaram como se expulsassem as agonias que muitas vezes pesam a vida.

E os termos "aula" e "didática" me levam a um educador profundamente comprometido com uma Educação emancipatória, inclusiva e libertária, sendo por isso mesmo odiado por aqueles que se interessam apenas pela manutenção da desigualdade, que não emancipa, não inclui e não liberta. Paulo Freire, no livro Cartas a Guiné-Bissau: registro de uma experiência em processo, fala da sua relação com a África: "Meu primeiro contato com a África não se deu, porém, com a Guiné-Bissau, mas com a Tanzânia, com a qual me sinto, por vários motivos, estreitamente ligado. Faço esta referência para sublinhar quão importante foi, para mim, pisar pela primeira vez o chão africano e sentir-me nele como quem voltava e não como quem chegava".

Ainda comentando essa relação, ele detalha a admiração por uma "cultura que os colonizadores não conseguiram matar, por mais que se esforçassem para fazê-lo". A resistência, a luta movida pela indignação e pela ancestralidade, o drible na morte fazem com que a África seja o baobá de um Brasil avesso ao de hoje. No Dia da África, e em tantos outros, é preciso lembrar as negras e os negros que nos ensinaram e nos ensinam a lutar por liberdade.

domingo, 17 de março de 2019

Um poema pra Mangueira


Nesse carnaval eu fui Mangueira
De verde e rosa me pintei e me vesti
Na Sapucaí defendi sua bandeira
De brava gente feito Beth e Leci

Nesse carnaval eu vi Dandara
Guerreira negra destemida
E chorei ao cantar na quadra
O samba da Manu da Cuíca

Entre serpentinas e confetes,
ouvi a voz das Marielles
Baiana, rainha, porta-bandeira
É das mulheres a Estação Primeira

Ali outro Brasil foi emoldurado:
na chuva sambava o menino
e um grito jamais silenciado
revelou ao país um novo hino

De duas cores se vestiu a quarta-feira
Vibrei com as notas da apuração
E sei que corro o risco de meu coração
Em outro carnaval bater pela Mangueira

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Como será o amanhã?


Oceano inteiro continuará sendo pranto de saudade amanhã, em referência à Calunga onde dolorosamente se percorre a travessia, para quebrar a corrente e alumiar o ritual. Quem estiver assistindo e admirando, constituindo o caudal de gente que se reiventa ali, estará sendo protegido pela união do céu e do mar. E teremos então um banquete para o rei, enfeitado do verde tijucano que nos trará a esperança desativada pelas negativas revestidas de óleo curador. Aralokô, pajuê. Em seguida aprenderemos que no princípio nem sempre era o verbo, no ritual sossegado das mães de santo na avenida. Axé! De repente o rádio será ligado por mãos femininas que revelarão um repertório de amor, poesia de outrora. E bailaremos. Já será madrugada, ao som da sinfonia de Villa-Lobos, brasileiro. Canoeiro, canoeiro... Há ainda que se botar banca na Avenida, vindo de São Carlos. Assim lutaremos pela liberdade diante das aquarelas de Debret. 

Navegaremos em águas claras até a Zona Sul, gritando por liberdade com orgulho dos ancestrais. Um menino na Santa Cruz ensinou o que é amar, nos explicando que a força pra viver está em um coração de criança, como o nosso pode também ser. Aprendendo a lição, não seremos mais um entregue a razão, e então teremos na mente o dom da criação. No pé da serra transformada em Avenida, um batuque pra Xangô. O rei bordará um mundo de delírios, sonhos, devaneios, tingindo de verde nossa história. Ouvindo o som do atabaque, entenderemos o clamor por piedade. Moju, Magé, Mojubá! Nos encontraremos no abraço da fera encantada, numa passarela tomada pelo canto da Iara, todos sendo levados pela correnteza que conduz até o Eldorado, uma Padre Miguel com cidadãos pintados de ouro.

Até que a sandália da passista no chão anunciará um novo ano. E as vozes se unirão em coro mostrando que o povo está mesmo matando a saudade. Na mais bela arte, as arquibancadas formarão a mais perfeita arquitetura numa paleta em que o preto se mistura com o amarelo. E do futuro virá o branco e o azul inundando nossos olhos de amor. "É o povo do samba!", gritaremos. Vanguarda popular composta por quem vem dos Macacos e do Boulevard. Meu Deus, se eu chorar não leve a mal. De São Cristóvão virá gente nos lembrar que não somos escravos de nenhum senhor. Libertados, estaremos também no trono, e depois do cassino, onde se ganha e se perde dinheiro, brincaremos de qualquer maneira. Pecado é não brincar o Carnaval. E Namastê pra todo povo da Avenida.

Desobedecendo pra pacificar, a luz vai acender; o céu, clarear. Coração aberto, quem quiser pode chegar. Voará a águia sobre nós, com poesia de cordel presa no bico, sob vinte e duas estrelas no céu. Provaremos o sabor do Carnaval, provocando uma vontade louca de que chegue logo o próximo. Calor que afaga, poder que assola. Mães e mulheres se aproximarão, apontando a estrela que tem que brilhar. Firmarão o tambor pra rainha do terreiro e veremos juntos a ginga que faz esse povo sambar. E é sambando que nos daremos conta da coroa girando, de pipas pelos ares, tiê, tucano e arara voando, tambores ressoando para ver brilhar meninos abandonados. Carentes, não teremos medo de amar. A nossa festa é pra quem sabe cuidar e pra quem não nega o amor. Sendo assim, voltaremos de lá alimentados de axé, já que o samba faz essa dor dentro do peito ir embora.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Esperança verde e rosa


O corte de verbas para o desfile das escolas de samba, que provocou um debate majoritariamente interno sobre o assunto, deixou claro que as medidas tomadas pelo prefeito —  e aqui podemos citar algumas: a ação da Guarda Municipal na Pedra do Sal, impedindo que houvesse a tradicional roda de samba no local; o corte do apoio financeiro à procissão de Iemanjá, que acontece há treze anos em Copacabana; a ausência de investimento na Casa do Jongo, que fechou as portas recentemente por falta de recursos  —  constituem um projeto de anulamento cultural caracterizado pela intolerância religiosa e pelo preconceito com a cultura negra.

Não me sai da memória o dia em que Tia Nilda, baiana da Mocidade, falou emocionada sobre sua relação com a escola no RJTV, em matéria que foi ao ar em fevereiro do ano passado. Afeto ignorado pelos que desconhecem ou discriminam, o sentimento de torcedores e componentes pela escola de samba, e tudo o que dele emana, é fator que potencializa a confiança e a coragem de enfrentar a dureza da vida e de se reinventar no mundo a partir de um toque de agogô. É encantada por esse afeto que a Mangueira insiste, no esplêndido da poesia, em resgatar nosso respeito, derrubando o cordão de um blocódromo que afinidade nenhuma tem com a festa.

O argumento que insustentavelmente sustenta o discurso sobre o dinheiro negado às agremiações, e cabe lembrar que as do Acesso ainda não receberam nenhum investimento do que foi acordado pela prefeitura, cai ainda mais em contradição devido ao evento organizado em Copacabana no sábado passado, para o qual houve o apoio financeiro que viabilizaria os ensaios técnicos. Evidentemente, a preocupação do prefeito é manter a ordem por meio dos seus próprios imperativos, baseados na não aceitação de outras crenças e manifestações culturais alheias à sua visão de mundo mas vivenciadas por enorme parte da população carioca.

Foi também a pretexto de manter a ordem que, no fim do século XIX e início do XX, membros da elite social criticaram e desqualificaram a Festa da Penha e criminalizaram o samba, por exemplo, tornando manifestações culturais de origem negra, como o batuque e a capoeira, elementos de repressão. O viés preconceituoso que causava essa repressão naquela época é o mesmo que molda, atualmente, um governo que propositalmente afeta a festa popular e caminha na contramão de uma sociedade plural que desenrola a vida no giro da roda da saia da baiana e que se reconhece na lágrima de um integrante da Velha Guarda.

Diante desse cenário, a esperança é verde e rosa: erguendo a bandeira do samba, a Mangueira mostra que pecado é não brincar o carnaval. E assim teremos uma Sapucaí que louva o botequim, o samba, o jongo, a diversidade sexual e de gênero, o bloco sem cordão, os santos e as santas  —  em especial Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem já foi chutada por um pastor da Universal em um programa de televisão. Uma louvação, portanto, à pluralidade e à subversão, com o objetivo de “desobedecer pra pacificar”, de mãos dadas com a letra da Mocidade. Neste Carnaval todos nós somos Mangueira, meu senhor.

Publicado originalmente no Carnavalize.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Cantando o Juremê na Sapucaí

No último domingo de ensaios técnicos na Sapucaí, a Império da Tijuca mostrou animação. O bom samba da escola se destacou e garantiu a empolgação, apesar de não ter sido cantado por todos os componentes. Ficaram um pouco comprometidos os quesitos “evolução” e “harmonia” (especialmente este), reconhecimento essencial para que a Verde-e-Branco drible as falhas, as corrija e faça um belo desfile no Carnaval.

No que diz respeito ao canto, a Beija-Flor não deixou a desejar. Pelo contrário. A escola de Nilópolis passou pela Avenida de modo explosivo, com um entrosamento bonito de se ver nas alas, em que cabe destacar o momento em que os componentes batem o pé no chão no incrível trecho “Araquém bateu no chão”. Neguinho da Beija-Flor, antes de cantar o melhor samba-enredo do ano, levantou as arquibancadas com “Domingo eu vou ao Maracanã”, “Mulher, Mulher, Mulher”, o samba de 2015 – referente ao enredo da Guiné Equatorial, último campeonato da Azul-e-Branco da Baixada – e, é claro, o samba de exaltação.

A bateria, que sustentou a escola até o fim, impressionou ao se apresentar de modo impecável. O casal Selminha Sorriso e Claudinho, como é comum, esbanjou simpatia e brilho. O ruim da noite foi o que aconteceu com o diretor Laíla, que passou mal (sofreu um princípio de infarto) e segue internado no hospital sem previsão de alta.

A última escola a se apresentar foi a Grande Rio, com a presença da homenageada Ivete Sangalo, que arrastou os fãs e lotou o Sambódromo. A bateria acelerou demais para acompanhar um ensaio que foi muito animado e se transformou em micareta, muito por conta da proposta do enredo.

Ivete, cantando o samba-enredo em cima de um trio elétrico, roubou o posto de principal intérprete. Os fãs da cantora foram ao delírio e fizeram festa. A Grande Rio realizou um ensaio polêmico, que agradou a muitos mas desagradou, principalmente, alguns dos que vivem e acompanham as escolas de samba o ano inteiro. No mais, ficou a impressão de que é a popularidade do enredo que poderá garantir o sucesso do desfile.

Ontem, as escolas que ensaiaram foram União do Parque Curicica, Alegria da Zona Sul e Cubango, todas da série A; hoje entram na Avenida Porto da Pedra, também da série A, Vila Isabel e Salgueiro, ambas do Grupo Especial.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Brilha o Cruzeiro do Sul


Ontem foi dia de estar presente no Sambódromo para acompanhar os ensaios técnicos. Cheguei à Praça Onze ansiosa para assistir às três escolas que passariam pela Avenida, mas confesso que não via a hora de cantar o maravilhoso samba da parceria de Altay Veloso. É pela verde e branca de Padre Miguel, portanto, que começo este registro.

O ensaio da Mocidade me impressionou sobretudo pela bateria, que fez uma apresentação arrebatadora. Assim que o samba começou, o público cantou junto, reforçando aquilo que alguns insistem em deixar de lado: o samba de enredo tem uma relevância tamanha. Os componentes das alas cantavam a plenos pulmões, acompanhados especialmente do setor 3, onde se concentrou a torcida. Mesmo com chuva, o céu de Sherazade revelou que a Mocidade tem razão pra sonhar. Sem muito sucesso em carnavais recentes, a escola aparentou ser forte candidata para estar entre as campeãs.

Antes dela, São Clemente mostrou que tem um samba capaz de animar a Sapucaí. Eu, que já o achava uma beleza mas duvidava de seu funcionamento, arrisco dizer que a escola pode surpreender no quesito. Apesar de ainda não ser tão conhecido pelo público, e até mesmo por componentes, o samba conta com um refrão que animou muita gente e demonstrou um bom desempenho. Entretanto, a São Clemente não se saiu muito bem em evolução. O destaque foi Rosa Magalhães no tripé da comissão de frente. A carnavalesca que tanto admiro, ainda mais por conta do desfile inesquecível que deu o título pra minha Vila em 2013, recebeu muitos aplausos.

Quem abriu a noite foi a Estácio, que caiu para o Acesso no ano passado e agora tenta retornar ao Especial. O enredo sobre Gonzaguinha empolgou os torcedores entrosados com o samba que lembra composições do homenageado. O ensaio foi animado, com participação de um público que soltou a voz e demonstrou carinho pela escola que se entregava.

No próximo fim de semana os ensaios técnicos continuam com Sossego, Rocinha e Santa Cruz no sábado, dia 28, e Império da Tijuca, Beija-Flor e Grande Rio no domingo, dia 29. A hora de cantar o Juremê na Sapucaí se aproxima.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Batizada no altar do samba


Quem gosta de Carnaval, e sobretudo de Escola de Samba, sabe que não é só em fevereiro que a gente vivencia a festa. As disputas de sambas de enredo nas quadras são prova disso. É a partir desse momento que o samba de cada escola passa por alterações que podem torná-lo melhor ou não, num processo que só termina mesmo no dia do desfile, quando avaliamos se o samba funcionou na Avenida. E a safra deste ano está especialmente boa.

A Mangueira ilustra bem esse processo que altera nosso olhar pra uma mesma obra: o samba deste ano era uma coisa antes da gravação oficial do CD e outra, totalmente diferente, na voz do Ciganerey, que é um intérprete incrível. Quando aconteceu a primeira votação das notas pros sambas na Rádio Arquibancada, lancei 9,8 pra Mangueira. Hoje, no entanto, para mim a Verde-e-Rosa merece 10, ainda que o samba não seja superior ao da menina dos olhos de Oyá, referente ao último título da escola.

A Vila, azul que dá o tom à minha vida, escolheu um samba arrebatador, que promete crescer muito na Avenida, com destaque para o Igor Sorriso, que tem uma voz ímpar capaz de melhorar ainda mais o que já era bom. Mesmo o trocadilho em “ouvi-la pra sempre no meu coração”, que poderia soar forçado, encaixou perfeitamente com o conjunto da obra. A homenagem a Kizomba de 1988 e à Angola de 2012 não cai na mesmice e engrandece o samba logo no início. Se depender do samba, o povo de Noel tem tudo pra fazer um desfile emocionante. A nota, é claro, só pode ser 10.

O samba da Grande Rio é razoavelmente bom. Animado, mas, em se tratando da letra, fraco na mesma proporção. Pode dar certo no Sambódromo em razão da animação, muito por conta da homenageada e do trecho “levanta a poeira, Ivete”, mas não arrisco dizer que certamente levantará a poeira nos setores. Fica, portanto, com 9,7.

Não me entusiasmei com o samba da Portela. Apresenta exaltações um pouco clichês e uma letra fraca e confusa em relação à sinopse, talvez comprometida por uma interpretação não tão bem feita. Para mim, a Águia recebe 9,8 no quesito.

O samba da Ilha, além de ser de grande relevância, faz a gente pensar numa Sapucaí inteira cantando “Ê, é no girê!”, um indício de que a escola tem condições de surpreender. O enredo inédito, voltado para o candomblé angolano, rendeu um belo samba pra Ilha. Não é um dos grandes da escola nem um dos três melhores do ano, mas é bom à beça. Nota 9,9.

O samba da São Clemente é bom. A parceria dos portelenses foi uma escolha acertada para a escola de Botafogo. Apesar de ter um enredo de difícil abordagem carnavalesca, a São Clemente conta com a incomparável Rosa Magalhães para desenvolvê-lo e, além disso, tem um samba apropriado para realizar um bom desfile, apesar de não haver trechos tão contagiantes a ponto de garantir a empolgação do público. Nesse caso, 9,9.

A Imperatriz tem um samba chato, meio cansativo, mas igualmente bonito. Não empolga, mas a escola vem com um enredo importantíssimo, que está sendo equivocadamente e propositalmente atacado pelos defensores do agronegócio, e uma letra que mostra a beleza e a relevância dos povos do Xingu. Por isso minha nota é 9,8.

A Tijuca, no quesito samba de enredo, só não perde pra Tuiuti. O “chega, my brother” não empolga e a batucada do pavão não enlouquece. Logo, a nota é 9,6.

A Tuiuti, que tem um enredo maravilhoso, não possui um samba à altura. É o pior da safra, sem se destacar em nada, com uma monotonia melódica e uma letra que não se distancia do comum. Naturalmente recebe a nota mais baixa: 9,5.

Salgueiro vai desfilar com um samba fraco e arrastado, que nem se compara ao do ano anterior, bastante superior ao atual. Pode até funcionar bem, mas aí só vai entender quem é Salgueiro. Minha nota é 9,8.

A Mocidade, para muitos, tem o melhor samba do ano. E eu só não confirmo porque sou da turma que viciou no Juremê da Beija-Flor. Mas é inegável que o samba da Mocidade é gigante, com uma levada única e trechos contagiantes, como há tempos a escola não trazia. As passagens “fui ao deserto roncar meu tambor/ pra Alah conhecer meu Xangô” e “põe Aladin no agogô, tantã na mão de Simbad/ meu ouvido é de mercador” traduzem bem demais a interação entre o Saara de lá com o Saara de cá, evidenciando a mistura de culturas. Impossível dar menos do que 10.

A Beija-Flor, que não é de brincadeira, resolveu mostrar a que veio já na escolha do samba. O refrão não sai da cabeça desde a primeira vez que a gente escuta, a letra é fácil e o “Pega no amerê, aretê, anamá” já garantiu o samba como antológico, totalmente distante de qualquer clichê. A única coisa que me incomodou, confesso, foi a supressão do “no ventre”, na gravação oficial, para facilitar o canto. Sou das que lamentam a ausência da expressão toda vez que ouve o Neguinho cantar “bate o coração de Moacir” sem o “no ventre” antes. É um detalhe que faz falta pra quem acompanhou a mudança, mas que em nada altera a qualidade do samba, que evidentemente merece nota 10.

Sendo assim, temos no geral uma safra bastante satisfatória, com poucos sambas de fato ruins, o que por si só já é gratificante para quem dá ao samba de enredo o valor que às vezes ele parece ter perdido. É assim, batizada no altar do samba, que inicio essa coluna para falar de Carnaval com certa regularidade, questionando a espetacularização da festa, narrando experiências em crônicas e registrando a imortal vitória da ilusão sob o olhar apaixonado de quem faz de tudo isso a sua cachaça.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A literatura brasileira no Carnaval

O desfile da Unidos de Padre Miguel neste ano, belíssima homenagem a Ariano Suassuna – escritor falecido em julho do ano passado –, foi mais um dos tantos exemplos da literatura brasileira no Carnaval. Essa relação entre a literatura e as escolas de samba passou a ser feita com a exigência de temáticas nacionais nos enredos, que ocorreu a partir da década de quarenta e proporcionou, desde a época, um diálogo importante entre a cultura letrada e a cultura popular.

Diante de um cenário histórico que, de certa maneira, opõe o âmbito das letras nacionais ao espaço popular, o Carnaval, festa em que o barão da ralé se consagra como rei profano e divino, foi capaz de mesclar a rua e a Academia e mandar às favas os títulos que para muitos trazem algum prestígio. É na folia de Momo, portanto, que os doutores abandonam suas máscaras e dão voz a Aldir Blanc e João Bosco: “custei a compreender que a fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias por toda a vida”.

Nesse sentido, a ponte entre o samba de enredo e a obra literária, quebrando o contraste popular x erudito, une aquilo que para muitos parece não possuir vínculo. A letra da música, em todo caso, obviamente não explica o aspecto literário – e, por isso mesmo, singular – da obra, mas sintetiza o que ela aprofunda por meio de um estilo também próprio. Assim, trabalhar com esses diferentes gêneros – principalmente em sala de aula, se pensarmos pelo viés educacional – pode ser altamente enriquecedor.

Dos diversos exemplos literários que foram temas dos desfiles carnavalescos no Rio de Janeiro, destacam-se alguns: em 1952, a Mangueira homenageou “um poeta de sublime inspiração”, Gonçalves Dias; a Portela, em 1966, foi campeã com o samba de Paulinho da Viola, o único de sua carreira, sobre Memórias de um sargento de milícias, o romance de Manuel Antônio de Almeida a respeito da figura do malandro e do Rio do século XIX; em 1975, a Águia se inspirou em Mário de Andrade para levar Macunaíma à Avenida, enquanto a verde-e-rosa poetizou o Carnaval com Jorge de Lima; a Em Cima da Hora ficou sendo responsável por um dos melhores sambas da história, em 1976, com enredo sobre Os sertões, de Euclides da Cunha, mostrando que o “sertanejo é forte, supera a miséria sem fim”; e, pra terminar, vale registrar que Ariano Suassuna, o Imperador da Pedra do Reino, já havia sido homenageado pelo Império Serrano em 2002.

Muitos outros enredos foram criados com base na literatura. Vitoriosos ou não – a Unidos de Padre Miguel, por exemplo, deveria ter sido campeã com Suassuna mas não foi –, formam, sem dúvida, uma contribuição histórica e cultural de grande valor para o Brasil. A análise dos enredos e seus sambas, dessa forma, faz com que o elo traçado entre o carnaval e a literatura possibilite a quebra de uma barreira existente entre as manifestações populares e as literárias.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Não tem jeito

Saí da Barão de Drummond pra ver um samba nascer. Chapéu branco, bermuda branca, sapato branco e a camisa da Vila Isabel ao meu lado. Alguém que também andava pelas calçadas do Boulevard conversava com dois amigos no banco do ônibus. Me lembrei do último campeonato, da minha voz quase-não-voz de tanto grito, da alegria que a lágrima manifesta. Eles falaram de Martinho e do bairro de Bento Ribeiro. 

Eu, feito criança vidrada no preferido brinquedo, vi e ouvi com admiração. "Tem que escrever!", disse um deles, tirando do bolso a caneta e procurando qualquer coisa que servisse como papel. Era mais uma letra azul-e-branca nascendo. A gente, que escuta Nelson Sargento cantar, já sabe que, mesmo agonizando, o samba não morre. Havia até instruções de escrita de quem já tinha mais intimidade com a coisa: não põe três pontos, samba não é assim, samba é direto. Anotado.

Fui parar de novo na 28, como de costume. Alas e compositores, baianas e carros de som, festa no Petisco, cerveja gelada no Costa e rua cheia. Desapeguei dos meus por um tempo e vi tudo só. Surdo, cuíca e tamborim à minha frente. Fiquei dentro da bateria com a canção e o coração, can-ção, co-ra-ção. Dá vontade de voltar sempre – é a emoção que puxa, que decide e que mostra o porquê da torcida por uma escola. Paixão é assim mesmo, a gente não quer nem saber, só sabe que é.

Não é à toa que o Moacyr Luz canta "Vila Isabel, meu Deus, como tu és de chorar de emoção" no início de um dos meus sambas preferidos. E eu já espero, com a ansiedade peculiar dos desesperados, o momento de ver a azul-e-branco entrar na Avenida, de novo sorrindo, deixando no ar a mais bela sinfonia. Martinho, em seu último show, falou sobre vitória e o povo de Noel, comovido, encheu de esperança o peito. Sou da Vila, não tem jeito.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Herói de nossa gente

Foi brincar Carnaval, em 1975, o “herói de nossa gente”. Deitado em sua rede, viu a águia portelense voar entre as árvores da floresta brasileira. Sabemos de sua história por causa do papagaio que conhecia suas frases e seus feitos e tudo revelou ao homem que ficou para nos contar.

Mário de Andrade acocorou-se em cima de umas folhas, ponteou na violinha e botou a boca no mundo para cantar na fala impura o que viveu Macunaíma. E foram Davi Corrêa e Norival Reis que fizeram um samba de enredo para que ele saísse das páginas de um livro fechado para encantar sua gente a céu aberto.

O anti-herói, que desde cedo manifestou sua preguiça e passou a demonstrar sua personalidade travessa, foi abandonado pela mãe e engravidou Ci, que perdeu o filho e virou estrela, deixando um talismã com Macunaíma. Numa rapsódia cujo enredo se desenvolve em torno do “muiraquitã”, o talismã que lhe foi dado por Ci e que ele precisava resgatar por tê-lo perdido em uma briga, o “herói sem nenhum caráter” foi atrás de Piaimã, o gigante que ficou com seu amuleto, mas não obteve sucesso na recuperação do objeto.

Macunaíma reúne o folclore brasileiro e as ideias das vanguardas europeias, representação do Modernismo na literatura nacional. É, assim, identidade por muitos desconhecida, é encontro de raças e é símbolo de cultura.

Sendo a reunião disso tudo, o “filho do medo da noite” desemboca no carnaval carioca, essa enorme manifestação cultural, e, além de se tornar constelação, fica também sendo responsável por um dos nossos sambas mais bonitos – defendido, na Avenida, por Clara Nunes –, que rendeu à Portela o primeiro Estandarte de Ouro em samba de enredo, a segunda vitória do hoje recordista Davi Corrêa.

Por ele ter ido morar no infinito, por ter virado constelação, Mário de Andrade chorou, e confessou isso numa carta enviada a Álvaro Lins: “pouco importa, si muito sorri escrevendo certas páginas do livro: importa mais, pelo menos pra mim mesmo, lembrar que quando o herói desiste dos combates da terra e resolve ir viver ‘o brilho inútil das estrelas’, eu chorei”.

Foi com uma constelação que a Portela, quinta colocada naquele ano, encerrou o desfile, reafirmando tudo o que o autor do livro sentiu, principalmente, na criação dos últimos capítulos. A azul-e-branco mostrou que Macunaíma brilha e comove, assim como resplandecem e encantam as grandes miudezas das nossas gentes.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.

sábado, 18 de junho de 2011

Candeia, a voz do partido alto


 “Samba é verdade do povo,
ninguém vai deturpar seu valor”
(Candeia)

Nascido em Oswaldo Cruz, desde pequeno acostumou-se a freqüentar as rodas de samba que seu pai organizava com muita cerveja e feijoada. Grande mestre do partido-alto e cultor desse ritmo que alegra as rodas de samba, Candeia também foi o responsável pelo samba de enredo que deu à Portela, pela primeira vez, nota máxima em todos os quesitos carnavalescos. Fazia parte da ala dos compositores da agremiação desde os 17 anos e, além desse samba memorável, ainda compôs outros para a Portela, a maioria em parceria com Valdir 59.

O sambista, que era um policial violento e respeitado, acabou tendo de superar um triste episódio causado por uma briga no trânsito. Um dos tiros que levou, por ter atirado nas rodas do caminhão que bateu em seu carro, deixou-o paralítico. No entanto, depois de muito sofrimento, Candeia voltou a abraçar o samba – a música De qualquer maneira marca seu retorno -, posicionando-se sempre em favor das raízes afro-brasileiras e exercendo uma militância a respeito das escolas de samba.

Isso fez com que ele fundasse o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, buscando preservar as tradições culturais e destacar a importância do negro na formação da cultura brasileira. Também escreveu, juntamente com Isnard, o livro Escola de samba – A árvore que esqueceu a raiz, em que protesta as interferências externas as quais as escolas de samba são submetidas.

O curta-metragem Partido Alto, de Leon Hirszman, retrata o valor do samba tão presente na vida de Candeia e de tantos outros sambistas, além de ratificar que Candeia é uma representação do partido-alto, uma figura singular no cenário do samba e símbolo de nossa cultura. Vale a pena assistir ao documentário e mergulhar num ritmo tão brasileiro, feito pelo povo, característico da cultura popular e, por esse motivo, responsável pela identidade do nosso país.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sobre o Carnaval

Durante o tempo que antecede o carnaval, estive mais em Vila Isabel do que em outro lugar, porque o ensaio da azul e branco na 28 de setembro é algo inexplicável. Ver toda aquela gente reunida, cantando um mesmo samba, com vontade de vencer e dando o seu melhor para isso, é uma das melhores coisas do nosso carnaval carioca, além dos ensaios na quadra, com diferentes sambas sendo cantados. Como se não bastasse, o ensaio técnico na Sapucaí só aumentou as expectativas dos foliões de Noel para que o título deste ano seja nosso. Como amante do samba e do carnaval, torcerei como louca para que 2011 tenha a energia da nossa Vila Isabel.

Contudo, a Unidos da Tijuca certamente é uma das candidatas mais fortes. Com o enredo “Esta noite levarei sua alma”, a nação tijucana promete um desfile arrebatador e decerto estará entre as campeãs. Assim como a Beija-Flor – além de sempre fazer um bom desfile, está com um dos melhores sambas, e a homenagem a Roberto Carlos, sem nenhuma surpresa, é merecida.

Salgueiro, falando sobre o cinema, algo que contribui muito para que a beleza tome conta do desfile, também parece vir forte este ano, mas não mais que as já citadas agremiações. A meu ver, Nelson Cavaquinho, imortalizado pela Mangueira, será responsável pela emoção contagiante que a verde e rosa espalhará na avenida, com grande chance de estar entre as melhores.

Mocidade e Imperatriz têm um samba empolgante, mas nada que surpreenda muito. Possuem refrões bons, que com certeza animarão muito o carnaval no Sambódromo, porém essas escolas podem ser beneficiadas pelo fato de que, com o incêndio da Cidade do Samba, Grande Rio, Portela e União da Ilha ficaram desfavorecidas. Aliás, a Grande Rio, com um ótimo samba-enredo, já estava com a vaga garantida para as campeãs e também era forte candidata ao título; infelizmente o trabalho de um ano todo foi afetado, mas a garra da escola emocionará a Sapucaí e o acidente ocorrido proporcionará um emocionante desfile das três escolas que não serão julgadas, mostrando que a solidariedade e a união são o que realmente move as comunidades.

Porto da Pedra, com o enredo sobre Maria Clara Machado, e São Clemente não me parecem tão fortes, não devem ficar entre as campeãs, mas estão confortáveis por não haver rebaixamento. Creio que o que marcará o carnaval de 2011 será a superação, afinal, mesmo com problemas enfrentados, a emoção de ver nossa escola e a paixão na hora de torcer são sentimentos que eternizam qualquer folia.