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segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Senha 124

Foto: Agência O Globo

Abro o livro Aruanda da Eneida enquanto espero a consulta do meu pai num hospital público do Rio em um dia muito quente de verão. Na sala do ambulatório, bastante gente aguarda ser chamada pela senha. 124.

Passam por mim, do lado de fora, pessoas sérias, cansadas, falando sozinhas, conversando com outras, mexendo no celular ou na bolsa. Com a sacola no chão, apoiada na parede, uma senhora vende café. À minha frente, na outra rua, há uma casa decerto antiga, com a pintura bem gasta, uma varanda grande embora vazia e a imagem de uma santa ou um santo – não consigo identificar de longe – na fachada. O azulejo, bem próximo ao telhado, disposto na parte superior e de modo central, é uma das marcas dos subúrbios que se impõem; da infância que retorna; do passado, portanto, que não se prende a seu tempo.

Olho a página na qual tinha fechado e começo a ler a crônica que dá prosseguimento ao livro, "Companheiras". Nela, Eneida fala de quando esteve com mais vinte e quatro mulheres presas políticas numa sala da Casa de Detenção: "Quem já esqueceu o sombrio fascismo do estado Novo com seus crimes, perseguições, assassinatos, desaparecimentos, torturas?".

A pergunta sobre esquecimento fica vagando na minha cabeça, penso no que ainda está bem recente, olho de novo para a casa com o muro descascando, cansado do mesmo paradeiro, e imagino a revolta da cronista – e sobretudo da militante que ela foi – ao constatar que, pior que o esquecimento, é a capacidade de ignorar o que é lembrado, de não querer enxergar, de propósito, a memória.

124. A senha é pronunciada depois de eu ter lido alguns textos e guardado o livro. O número me leva à Eneida: ela, uma mulher, mais as outras vinte e quatro. As vinte e quatro mulheres e a que chegou depois, Elisa Soborovsk, responsável por marcar ainda mais aquele lugar, aquelas vidas ("O governo Getúlio Vargas entregou-a mais tarde à Gestapo. Hitler matou-a.").

Eneida e as "grandes mulheres; boas companheiras", assim como tantas outras, se impuseram, retornaram, não se prenderam a seu tempo. Lembrar-se delas é como emoldurar, na fachada de nossas casas, o que nos guarda e nos inspira.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Conversa de família


Já faz tempo que minha mãe e meu pai se separaram, mas isso nunca os impediu de continuarem amigos. Na verdade, a amizade entre os dois até se tornou mais leve, mais aparente, após a separação. Numa noite, por exemplo, depois de trabalhar o dia todo, ele, do alto de seus cinquenta anos, chegou indignado em casa comentando com a minha mãe:

– Pô, caraca! Aquela mulher me mandou mensagem perguntando o que eu estava fazendo online no zap de madrugada. É mole? Fuçando minha vida a essa hora.

– E quando é que tu vai dar uns pega nessa mulher? Ela tá te querendo.

– Que dar pega o quê! Vou dar pega nada!

– Deixa de ser frouxo! 

– Frouxo... eu, hein. Que coisa esquisita, tirar print da tela pra dizer que viu o “online”...

Ele acha um absurdo a modernidade do stalker, esse negócio de ver o que o outro faz por meio de redes sociais. Talvez nem saiba o significado de stalkear. Não entende que, quando a gente tá a fim de alguém, pode acabar mandando uma mensagem de madrugada, mesmo que na maioria das vezes isso esteja condicionado a uma total falta de assunto.

Poucos dias depois do ocorrido, fomos os três comer num trailer da nossa rua, onde costumávamos pedir um x-tudo acompanhado de batata frita. Na mesa, voltamos ao assunto, e meu pai – meio sem graça, rindo da situação – continuou sem acreditar que uma pessoa se prestava ao papel de bisbilhotar a vida da outra no whatsapp, ainda mais de madrugada. Eu havia acabado de mencionar o nome da tal moça, quando minha mãe me interrompeu, direcionando a pergunta ao meu pai:

– Tu não vai comer?

Interferi na mesma hora, num misto de constrangimento e espanto: 

– Mãe!

– Que é, garota? A batata! Perguntei se ele não ia mais comer a batata frita...

– Ahhh, bem. 

Gargalhamos.

Crônica destaque da antologia +Humor, publicada pelo Selo Off Flip em 2023.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Páginas viradas


Não venho de uma família leitora, que possuía estante de livros em casa e me indicava livros para ler na infância. Meus pais, que têm outra formação, outro entendimento de mundo, trabalhavam muito para me manter na escola - fato que, além de tantos outros, me faz ser eternamente grata aos dois. E meu universo de leitura foi se construindo no ambiente escolar, ainda que nem fossem muitos os livros lidos também no colégio. Quando pequena, causava estranhamento em casa por pedir livros no Natal, ainda mais porque eu dizia não gostar daqueles com imagens, queria livros grandes, só com letras. Fui uma criança que não ligava para as histórias em quadrinhos, embora adorasse o Almanacão de Férias da Turma da Mônica, que me deixava horas colorindo desenhos. 

Lembro bem os dois livros que marcaram minha infância: "As cores de Laurinha", que vi um dia com a minha prima, era uma leitura exigida pela escola dela, e diante do meu interesse ela me deu o livro de presente, disse que já tinha lido e que não precisaria mais dele; e "O menino maluquinho", que ganhei de um primo no dia em que a família estava toda reunida na casa do pai dele - em pouco tempo eu interrompia a conversa dos adultos para dizer que o livro era muito legal. "Você já leu o livro todo? Mas você acabou de ganhar!", me disseram os adultos, espantados.

Só fui ler mais, mesmo, quando pude passar a comprar meus livros, a montar minhas estantes, a trilhar minhas metas de leitura. Desde sempre entendi que meu mundo é feito de letras, livros, palavras, papéis. São elas/eles que me ensinam, me acalmam, me intrigam, me orientam. Não à toa me formei em Letras, me tornei professora, fiz mestrado em Literatura e comecei o doutorado também em Literatura. Minha vida é virar a página.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Vila e a rua

Foto: Diego Mendes/ Vila Isabel

Depois de pensar bastante nos motivos que fazem meu coração ser branco e azul, arrisco dizer que o que mais me comoveu na Vila Isabel não foi o momento de entrar na quadra pela primeira vez, mas o deslumbramento de estar com a escola na rua. Chegar à Vinte e Oito de Setembro em dia de ensaio, ou mesmo abrir a primeira cerveja do lado de fora da quadra em noite de disputa de samba, faz a gente se emocionar com o espaço, os componentes, os torcedores.

Os integrantes da bateria com seus instrumentos no meio da rua, o fluxo de carros substituído pelo de pessoas, os bares cheios horas antes de o carro de som ser ligado, as barracas de churrasquinho nas calçadas musicais, os acenos da vizinhança que vibra das janelas e das varandas, tudo isso fez parte do meu encanto pelo “povo do samba”. Naquele momento, eu percebi a relação peculiar da Vila com a rua, uma ligação que faz ainda mais sentido ao lembrarmos que, mesmo no ano de Kizomba, a escola ainda não tinha quadra e ensaiava a céu aberto.

O chão da Vila Isabel, que é forte, vem de muito tempo. E é ele que me remete ao trecho do samba de Moacyr Luz e Martinho: “Vila Isabel, meu Deus, como tu és de chorar de emoção…”. Foi em 2013 que chorei de emoção após acompanhar cada nota da apuração na quadra e ver ser declarada a vitória, com as bênçãos de Noel. Comemorar o campeonato de nossa escola por si só já é emocionante, mas fazer isso depois de ter presenciado o preparo, o empenho e a garra de uma comunidade nos projeta para uma dimensão incomparável, em que o mundo todo passa a caber nos versos “é o morro no asfalto duas vezes: uma pra ser campeão e a outra pra comemorar”.

Conheci a Vila de perto nos preparativos para o Carnaval de 2011. A partir daí, muitas vezes estive no aquecimento da bateria e fui atrás da Swingueira nos ensaios. A certeza da minha paixão por essa escola só crescia todas as vezes em que o Tinga, em frente ao antigo Petisco, puxava “Sou da Vila, não tem jeito” e nossas vozes se somavam à dele. Cantando isso no meio da multidão, qualquer vilaisabelense renasce das cinzas e enxerga com mais nitidez a beleza da vida no menino que, aos poucos anos de idade, caminha com um tamborim na mão, embalado pelo passo cambaleante da criança que aprendeu recentemente a andar mas já sabe amar uma escola.

Além de tudo, os três campeonatos da Vila traduzem muito do que faz parte de mim: a sede de que o Apartheid enfim se destrua; o amor pela América Latina; e o desejo de que as terras sejam partilhadas, como bem apontou Martinho no verso “progredir, partilhar, proteger”. Foi a Vila Isabel, feita de raízes que ecoam o grito forte dos Palmares e guiada pela lua de Luanda, que me ensinou que vale muito viver o Carnaval o ano inteiro pra tudo se acabar na quarta-feira.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Diplomas emoldurados


Numa sociedade em que é comum ouvirmos "ele é engenheiro civil, melhor do que você" e de doutores pra lá e pra cá que se acham superiores ao que consideram o restante dessa sociedade, os diplomas acabam se escondendo nas gavetas de quem estudou e pesquisou durante muito tempo, enfrentando dificuldades que a maioria nem toma conhecimento, para que seja evitada a imagem atrelada ao egocentrismo, à soberba e ao orgulho vazio. Em resumo, para que uns não sejam confundidos com muitos que não sabem (ou sabem e ignoram) o que é humildade.

Nunca quis colocar um diploma meu num quadro. Mas tenho pensado bastante na vida e me lembrei de uma história que minha mãe conta: quando eu fui pra escola pela primeira vez, ela, diferentemente das outras mães, ficou frustrada porque eu me despedi e não olhei pra trás, sem choro, nada. Ela foi embora se perguntando por que eu não chorei, com vontade de tentar me explicar, secando minhas lágrimas de filha que não queria ficar longe de casa, que mais tarde eu iria embora e que a escola seria um lugar legal pra mim. Não foi preciso. Eu dei tchau e entrei. Acho que aí já estava moldada a minha relação com o estudo. Eu sabia que meu caminho só poderia ser traçado por ali, pela pesquisa, pela leitura, pelo conhecimento.

Fui uma criança e uma adolescente que me cobrava muito, muito mais do que meus pais, que nem precisavam me cobrar. Depois de um tempo, a gente avalia isso e percebe o que tem de positivo e o que tem de negativo, mas, na verdade, eu tenho consciência de que faria tudo basicamente da mesma forma, se me fosse dada outra oportunidade. Ontem emoldurei meus diplomas (graduação, premiação machadiana e mestrado) para dar de presente àquela menina que sempre se empenhou e sempre valorizou a educação. 

Na adolescência, ouvi aquele trecho de música que diz "nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos" e pensei muito nele. A quantidade de mulheres que se desfaz de seus planos é muita. Não é fácil. Nunca foi. Em geral, mulher abre mão de muitas coisas pra não se desfazer de seus planos. Mas é preciso ter força, é preciso ter raça e é preciso ter sonho sempre.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Dentro de um livro


Desde o mês retrasado eu tenho escutado um álbum que me marcou bastante. Quando eu era pequena, pedia com frequência à minha mãe que colocasse o Perfil da Adriana Calcanhotto pra tocar. Arrisco dizer, sem muita certeza, que "Inverno" era a minha preferida, até porque me fascinava a ideia de o dia mais feliz de uma pessoa ser lembrado pelo olhar de outra espelhando a passagem de um avião até ele sumir.

Também me agradava muito o início de "Esquadros": "Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome". Não sabia quem era Almodóvar nem Frida Kahlo na época, naturalmente, mas ignorava isso porque, havendo quem não soubesse o nome de algumas cores, não seria grave que eu não soubesse o significado daquelas palavras desconhecidas. Por outro lado, eu me dava conta de que me identificava com essa coisa de andar pelo mundo prestando atenção nas cores.

São três os episódios que até hoje guardo, ocorridos enquanto eu andava não pelo mundo, mas pela cidade: quando, por volta de um seis ou sete anos, vi uma menina de fralda com a mãe numa calçada, ambas sentadas no chão ao lado de potes transparentes com tampas coloridas – aquilo me impressionou tanto que passei o dia pensando nelas, comentando com a minha mãe a imagem que, hoje sei, me fez refletir sobre o quão penoso é andar pelo mundo "vendo doer a fome nos meninos (e nas meninas) que têm fome"; no dia em que, criança, sem saber eu impedi o roubo de um videogame num shopping, porque o moço pegou a embalagem, percebeu que eu estava acompanhando tudo e ficou imóvel me encarando, até devolver o produto com uma expressão pálida de quem me pedia silêncio; e na vez em que da janela de uma casa em Vila Isabel eu vi um policial sendo agressivo com um menino na rua deserta em que estávamos.

Todas essas cores – o colorido das tampas dos potes com comida e o negro da menina e da mãe, do rapaz que hesitou em levar o videogame e do menino agredido pelo policial que abusava da própria autoridade e do próprio preconceito – fizeram parte da minha formação. E aí compreendo com facilidade por que eu já gostava de repetir trechos como “eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”. Aqueles personagens reais da minha infância, afinal, representavam tudo isso: a fome da mãe e da filha na rua, a vontade enorme do rapaz de ter videogame ou dinheiro, o desejo doloroso do menino de ser respeitado e sua raiva ardente originada da humilhação seletiva do policial, com a mão pesada levantada sem dó na direção de quem é negro e pobre.

As cores de Almodóvar e Frida Kahlo contrastavam com a capa acinzentada do álbum da Adriana Calcanhotto, mas lembro que, coerentemente, me soavam tristes canções como "Devolva-me", "Mentiras", "Vambora" e "Metade", revelando uma solidão que minha cabeça infantil admirava mas não era capaz de entender tão profundamente. Ouvir a atordoante pergunta "e meus amigos, cadê?", a afirmação "não tem ninguém ao lado" e o desespero em “que é pra ver se você olha pra mim" me mostrava como a vida adulta devia ser complicada.

Em "Cariocas", concordei com muito do que era dito na letra. De fato eu detestava o sinal fechado, sobretudo em dias de viagem para a Região dos Lagos, onde eu comeria camarão e passaria manhãs, tardes ou noites na praia, e não gostava dos dias nublados. Essa expressão, "dias nublados", também me remetia à capa do disco, e só entendi que ela poderia fazer sentido porque a cantora não era carioca, então podia ser que gostasse de dias assim.

Por fim, mesmo que provavelmente não pensasse isto na naquela época, atualmente vejo em "Vambora" um dos trechos mais bonitos, talvez o meu favorito, de todo o álbum: "Porque meu coração dispara quando tem o seu cheiro dentro de um livro". Apesar de ouvir essa música desde pequena, foi somente no ensino médio que descobri que "dentro da noite veloz" e "na cinza das horas" eram referências a livros de Ferreira Gullar e Manuel Bandeira. E sei, ainda a respeito da letra, que me intrigava o desafio proposto em "você tem meia hora pra mudar a minha vida", mas foi só depois de muito tempo que eu entendi que essa parte da música era mesmo possível de acontecer.

domingo, 18 de outubro de 2020

Fantasia de bate-bola

Foto: Thaís Velloso

Na infância, comentei com a família que queria uma fantasia de bate-bola. Minha avó paterna quase caiu pra trás, indignada, com uma expressão de estranhamento que me deixou na cabeça aquela interrogação que surge nas personagens de história em quadrinhos. Que bate-bola o quê! Isso é coisa de menino! Minha mãe desconversou, ninguém me levou a sério e a fantasia de bate-bola nunca fez parte do meu carnaval.

Me lembrei desse episódio quando li uma reportagem sobre mulheres ganhando esse espaço e se fantasiando com máscaras, bolas e sombrinhas. Começaram a participar dos grupos com fantasias denominadas femininas, mas depois, enfim, passaram a vestir o traje completo dos bate-bolas. Ao ler isso, vibrei por saber que muitas meninas hoje em dia, se quiserem brincar carnaval dessa forma, podem ter sua vontade realizada com mais facilidade.

A mesma reportagem ressaltava que, vestidas de bate-bola, as mulheres se libertavam das imposições que sofriam, de modo que a máscara, por esconder suas identidades, possibilitava-lhes dar cambalhotas, rolar no chão, pular e dançar. Ou seja: escondidas naqueles panos, podiam viver; irreconhecíveis, dentro de uma fantasia que permitia serem confundidas com homens, tinham o crivo social necessário para fazer o que desejavam, sem julgamentos.

A criança que eu fui ainda se espanta com este mundo em que mulher só pode pular, dançar, rolar no chão e dar cambalhota – em suma, se divertir – sem ser cobrada se estiver sob o anonimato de uma máscara. E nós percebemos isso desde cedo. O que eu buscava com a fantasia de bate-bola, afinal, era a alegria.


* Publicado na coletânea Prêmio Off Flip 2023: crônicas

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Primeira vez


Fui uma criança que passou a frequentar a missa de domingo para acompanhar os pais na época em que eles me informaram que eu faria catecismo. Acho que foi nesse período que comecei a reclamar das circunstâncias da vida, porque me lembro nitidamente da dificuldade que era assistir à missa das crianças, e sobretudo acordar para assistir à missa das crianças, sempre iniciada às oito e meia da manhã. As aulas de catecismo aconteciam logo em seguida, então eu passava a manhã inteira na igreja.

Ensinada que ali era a casa de Deus e portanto um ambiente agradável, eu me sentia uma criança pecadora por querer prolongar o sono aos domingos e ir à missa sem vontade alguma, mas me entusiasmava em igual ou maior proporção com o ensinamento de que o Deus misericordioso tudo perdoava. Imersa nesse conflito interno que me acompanhou durante a época, terminei as aulas e fiz minha primeira comunhão.

Nos preparativos para o dia da eucaristia, tudo ficou acertado em alguns encontros, de modo que uma menina da turma se ofereceu para ler trechos bíblicos lá na frente, ao lado do altar, sendo o centro das atenções para toda a igreja, uma ideia que me apavorava e da qual fugi quando outros alunos comentaram que eu lia bem nas aulas e poderia ficar encarregada da tarefa. Provavelmente eu agradeci bastante a Deus quando a outra menina despistou a ideia e se pronunciou, dizendo que gostaria de ler no dia, o que todos acataram de imediato.

Até que chegou o domingo da primeira comunhão. As crianças se distanciaram de seus pais e ficaram juntas em bancos à parte, uma espécie de área vip de um evento eclesiástico. O padre começou a falar e um tempo se passou. Absolutamente tímida, eu me tranquilizava sabendo que só sairia do meu lugar para tomar a hóstia. Nesse instante, senti uma pequena movimentação e reparei que a professora da catequese havia pedido para alguém me cutucar. Quando olhei pra ela, ouvi baixinho: “A menina que ia ler não pôde vir, preciso que você venha comigo agora pra fazer isso.” O “agora” não me dava tempo de negar, nem de pensar em outra alternativa, nada. Mal tive tempo de me desesperar. De repente estava eu subindo os degraus, me posicionando perto do altar, com um microfone na direção da minha boca. Eu nunca tinha usado um microfone. Era a primeira vez que eu falaria em público. Todos, em silêncio, olhavam para mim.

Ajeitei os folhetos e comecei a ler, sem acreditar que aquilo acontecia. A minha expressão era de serenidade, mas a sensação era de uma enorme agonia. A professora, alguns colegas, familiares e pessoas próximas vieram falar comigo depois, sorridentes, elogiando o que eu havia feito e o modo como eu tinha lido. Muitos não faziam ideia do monstro que eu acabava de enfrentar. Diante de palavras positivas, para mim aquilo era um milagre ocorrido no dia em que experimentei a hóstia.

Ainda que o pavor de falar em público tenha me acompanhado por muito tempo, sendo inclusive uma preocupação quando decidi seguir o magistério, hoje penso na minha primeira comunhão como um impulso certeiro contra a timidez. Depois de me tornar professora e lidar com públicos variados por conta do trabalho, finalmente aprendi a driblar o desconforto de ter todos os olhares, ou boa parte deles, voltados para mim. Mudei tanto – ou me tornei tão mais eu – que não vou mais às missas de domingo.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Tantinho da Mangueira


Era um dia em que a rua estava vazia. Enquanto os meninos brincavam cá dentro, aproveitei para espiar o que se passava do lado de fora. Lá embaixo alguns carros cruzavam o viaduto. Uma birosca aberta com o baralho sobre a mesa, duas crianças caminhando juntas, sacos de lixo amontoados no poste. Quando me inclinei para deixar a janela, fitei, na do vizinho, a bandeira presa na grade. As cores eram nossas. E imediatamente me veio o sonho que eu havia sonhado: era o partido alto, o desafio do improviso, o samba de terreiro, o quintal unindo o canto e o falatório, as palmas que firmavam, a ala de compositores presente; era a memória em verde e rosa.

E foi então que, com mais nitidez, puxei dessa memória: girava a baiana na quadra, nasceu o menino. Ainda pequeno, conheceu a bateria antes do colégio — a primeira escola, como já diz o nome, foi a Estação Primeira. E no sonho tinha uma rua, acho que uma avenida, bem extensa, toda enfeitada, com um tapete no meio, um tapete verde e rosa, para alguém passar em direção ao ponto onde minha vista não chegava. E eu vi o menino ao lado das lavadeiras, ao lado de sua mãe, no tanque perto do Buraco Quente. Em horas de trabalho, elas cantavam. E o menino, ele prestava atenção, aprendia com as mulheres.

Era a baiana, o menino, a bateria, a ala dos compositores. Era uma nação que ele guardava. Da outra ponta do tapete verde e rosa, onde eu não conseguia ver bem, o som da surdo um preparava o corredor iluminado. Até que soprou o vento, revelando os baluartes à espera. Naquela passarela, o verde e o rosa do tapete cintilando, abriu-se caminho para ele passar. E vi o ponto mais alto do morro, o senhor então menino, o menino agora mais velho. Vinha rompendo o dia. Xangô veio ver. Era a memória em verde e rosa. Com o surdo um quase em silêncio, no diminutivo feito o seu nome, ele surgiu. Deixa o Tantinho passar!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

A varanda da minha casa


Recentemente vi uns meninos soltando pipa enquanto o ônibus que me levava pra casa estava parado no sinal. Isso foi bem antes da quarentena. Sorri ao me lembrar da liberdade que a rua me trazia na infância. 

Guardo até hoje, aparentemente sem motivo, a recordação de uma noite em que fomos, eu e mais algumas pessoas da família, acompanhar os amigos da minha tia até o ponto de ônibus. Eles iam pra Bento Ribeiro. A gente formava um grupo de oito ou mais pessoas descendo a ladeira que era a rua onde eu morava para dobrar à esquerda duas vezes e caminhar mais um pouco até o ponto mais próximo. A conversa distraída e a bola no pé — um de nós dominava a bola durante todo o trajeto — nos acompanhavam. Naquele dia parecia que ninguém ali sentia medo da violência da cidade. Faz tempo, desde que cresci, que não tenho essa sensação de liberdade na rua.

Da janela, agora de dentro de casa, observo uma pipa no céu. Não sorrio como sorri no dia em que estava no ônibus. O que acontece agora é a aproximação de uma angústia, muda como o cerol que corta a pipa no alto. Liberdade, hoje, tem a ver com poder estar aprisionada dentro da própria casa. Nós, que sempre tivemos dificuldade de assumir as contradições humanas, ou mesmo de enxergá-las, lidamos atualmente com esse paradoxo. É tempo de deixar as pipas penduradas na garagem, de recolher as cadeiras da calçada, de perceber que o pôr-do-sol pode ser mais bonito visto da varanda que não tenho em casa.

Há poucas semanas almoço à mesa diariamente com o meu pai, que todos os dias estava trabalhando. Não sei dizer quando foi a última vez que isso aconteceu antes da quarentena. Faz tempo, desde que cresci, que o correr da vida passou rosianamente a embrulhar tudo. Fragilizados, preocupados e aflitos, estamos, cada um à sua maneira, desembrulhando talvez não tudo, mas certamente tudo o que é possível.

domingo, 22 de março de 2020

Quarentena


Da minha janela vejo os morros distantes, mas não tão distantes que possam silenciar o som dos tiros que por vezes existem. De Quintino localizo a Serrinha. E o que vem à mente é a quadra do Império Serrano com baldes de cerveja, pessoas circulando, cantando e conversando, o calor humano provocado pela quantidade de gente. Faz tempo que não vou ao Império. Vai demorar pra eu pisar numa quadra. 

Da janela vejo a rua mais vazia, mas também o bar aberto com algumas pessoas conversando, como se o mundo não estivesse ruindo. O sol não deixa de surgir, mas é difícil aproveitá-lo. Não se pode vestir o short jeans, a blusa, nem colocar o brinco e o batom, calçar o chinelo e virar a chave para pegar o elevador até a portaria. A rua não me espera, sossegada. Algumas motos passam pela Suburbana (a gente não fala Dom Hélder Câmara), uma sirene inquieta para por perto, as janelas do prédio da frente parecem mais cheias. O ventilador ligado, o filme preferido do meu pai na televisão, o bordado da minha vó, o descanso aflito da minha mãe, tudo isso passa pelos meus olhos e eu agradeço por estarmos juntos, ainda que com medo, ainda que acordando assustada, ainda que sentindo os efeitos físicos e mentais de todo esse longo processo. Pessoas próximas a mim ainda precisam trabalhar, outras ainda não tiveram uma noção mais real da gravidade, e talvez a nossa agonia maior seja não ter controle sobre quem amamos, como sempre na vida. Mas sobretudo agora. 

Tenho minha fé e minhas crenças, todas baseadas nas minhas próprias experiências, em tudo que já senti e sinto. Em outras janelas existe gente angustiada também. Lá no morro, onde a vista não alcança o detalhe, o amor dói no peito, a vida aflige, o medo faz a reza. Um atabaque, agora em silêncio, pode ser ouvido quando fechamos os olhos. Da janela sinto medo, vejo de perto o que não posso abraçar. Há mesas e cadeiras sozinhas nas calçadas, um vazio nos ônibus. Quando ouço a música que há dias está na minha cabeça, penso nas palhas que cobrem o rosto. Um conforto na sabedoria. Olho pra cima, as nuvens continuam andando sem pressa, despreocupadas. Fecho a janela e volto pra viagem à roda do meu quarto. Mais tarde vou tentar ler um livro.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Disritmia

Foto: Thaís Velloso

Tô sentada numa mesa de bar e um cara ouve Disritmia sem parar. Tô com vontade de mijar. Penso no homem que mais amei na vida. Meu copo tá cheio, bebo sei lá por quê. Hoje vi que tenho saturno em aquário e tô fodida, foi o que pensei de imediato. Um menino veio me vender amendoim, ri com ele, dei parabéns porque foi seu aniversário recentemente. Cheguei aqui no bar e pensei que gosto da vida que eu tenho. Fiz o que sei, amo os meus e detesto poucos. Gosto da rua, de amores de calçada e de relembrar o passado. Mas hoje me dei conta de que relembrar o que passou é um hábito, não um prazer. Sei lá, todo mundo sofre. O cara ainda tá ouvindo Disritmia. É claro que ele queria estar com alguém. Eu sigo bebendo. Não sei com quem eu queria estar. Quem eu amei não dá. Hoje em dia não amo mais, sem covardia, sem lamento, sem verdade. A vida é um samba de Aldir Blanc cantado numa tarde vazia, com o copo cheio. Sou do subúrbio, vibro com alguém cantando os exus catimbeiros, com a cerveja gelada e o dinheiro na conta. Já fui capaz de fazer loucura por alguém. Já fiz. Já me envergonhei. Já dormi e acordei achando que a vida é boa pra caralho. Já dormi e acordei achando que a vida não valia a pena. Vi que valia. Me encontro nas calçadas, nas vielas, nos becos, na ralé. Tenho preguiça dos que se sentem. Não sei lidar com elogio. Sou o Tempo, sou Oxum, sou Ogum me amparando. Há uma correnteza que me leva serena e outra que me arrasta. Sou o samba de Paulinho da Viola na madrugada de choro escondido, sou a letra de Nei Lopes num sábado de manhã, sou a voz de quem ama num peito batendo quando se acorda. Sou amor e ninguém vê. Que se fodam os que não enxergam. Sou beijo que se entrega e corpo que se dá no meio da noite. Quem tá comigo não dorme, mas acorda sorrindo. Há um riso que me embala. Sou o rio que corre, intenso e devagar. Eu preciso de um tempo grande num mundo onde toda gente é desconfiança. Quem chega até mim vê a cachoeira e o carinho. Disritmia. De vez em quando eu tenho. De vez em quando eu curo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

180 anos de Machado


Não lembro a primeira vez que li Machado de Assis. Acho, porém, que foi com Missa do Galo, no Colégio Pedro II. As experiências iniciais não foram as melhores, embora eu olhasse pros seus livros com alguma simpatia. E pouquíssima disposição, confesso. Só que mais pro fim do Ensino Médio eu decidi ler Machado com maior disposição, aproveitando o embalo de ter acompanhado a minissérie "Capitu", que me aproximou mais de Dom Casmurro.

Quando entrei na Letras, na UFRJ, eu já sabia que me dedicaria a estudar Machado. Ao longo de todo tempo que fiquei na faculdade, fiz três cursos sobre o autor: um como ouvinte no início da graduação, depois sem ser apenas ouvinte e outro no mestrado, todos ministrados pelo professor Ronaldes de Melo e Souza. Minha monografia foi sobre teorias na crônica machadiana; minha dissertação, sobre a escrita literária também na crônica machadiana. Percebi que Ressurreição era meu livro preferido dele, depois me apaixonei por Esaú e Jacó e hoje em dia não sei qual acho melhor.

Há dois anos terminei o mestrado. No final de 2016, fui premiada na Academia Carioca de Letras pelo melhor ensaio sobre a obra de Machado. No ano passado, fui convidada para falar, também na Academia Carioca de Letras, sobre a minha dissertação. Aprendi muito com o aniversariante de hoje, sigo aprendendo e sei que posso aprender muito mais. Minha relação com a literatura, sobretudo a brasileira, é como a que tenho com o samba e o carnaval: não vivo sem. E Machado tem uma participação fundamental nisso - na minha formação, na minha visão de mundo, no meu modo de encarar os contrários que se harmonizam no ser humano.

Obrigada, Bruxo. Agora, cento e oitenta anos depois, você enfim tem este retrato que te representa fielmente: negro, carioca, brasileiro, o escritor mais incrível deste país.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

África: o baobá da vida Ilê Ifé


Dentre os muitos sambas bons que tem a Beija-Flor, um dos meus preferidos é o que conduziu a escola no desfile campeão de 2007 - composição de Claudio Russo, J. Veloso, Gilson Dr. e Carlinhos do Detran -, do qual destaco um belíssimo trecho: "Agoyê, o mundo deve o perdão/ A quem sangrou pela história/ Áfricas de lutas e de glórias". 

Por ser de lutas e glórias, em 25 de maio a África é celebrada. O dia foi escolhido devido à criação da Organização da Unidade Africana (OUA) na Etiópia, na data de 25 de maio de 1963, a fim de defender e emancipar o continente. Nove anos depois, foi decidido pela ONU que esse passaria a ser o dia da África. E o trecho do samba da escola nilopolitana assim se confirma, já que a celebração é uma forma de resgatar a memória dessa luta pela independência a partir do combate à colonização europeia e ao Apartheid. 

Sábado passado, portanto 25 de maio de 2019, um evento comemorando o aniversário de Madureira acabou se tornando, para mim e para todos os que se reuniram na Arena Carioca Fernando Torres, no Parque Madureira, também a comemoração do Dia da África. Uma roda de samba que tem Nei Lopes e Zé Luiz do Império como convidados, além de ser coisa fina, sinhá, une a resistência do samba - desde sempre atacado pelos mesmos que naturalizam a absurda depredação de terreiros - e a identidade negra que os dois representam. Cantando "Morrendo de saudade", "E eu não fui convidado", "Malandros maneiros" e "Senhora liberdade", pareciam ter transformado a roda numa aula em que a didática se revelou no batuque, na criança que bateu palma, nas vozes que cantaram como se expulsassem as agonias que muitas vezes pesam a vida.

E os termos "aula" e "didática" me levam a um educador profundamente comprometido com uma Educação emancipatória, inclusiva e libertária, sendo por isso mesmo odiado por aqueles que se interessam apenas pela manutenção da desigualdade, que não emancipa, não inclui e não liberta. Paulo Freire, no livro Cartas a Guiné-Bissau: registro de uma experiência em processo, fala da sua relação com a África: "Meu primeiro contato com a África não se deu, porém, com a Guiné-Bissau, mas com a Tanzânia, com a qual me sinto, por vários motivos, estreitamente ligado. Faço esta referência para sublinhar quão importante foi, para mim, pisar pela primeira vez o chão africano e sentir-me nele como quem voltava e não como quem chegava".

Ainda comentando essa relação, ele detalha a admiração por uma "cultura que os colonizadores não conseguiram matar, por mais que se esforçassem para fazê-lo". A resistência, a luta movida pela indignação e pela ancestralidade, o drible na morte fazem com que a África seja o baobá de um Brasil avesso ao de hoje. No Dia da África, e em tantos outros, é preciso lembrar as negras e os negros que nos ensinaram e nos ensinam a lutar por liberdade.

domingo, 19 de maio de 2019

Vai chamar quem mora longe


Na semana passada, falei rapidamente com um professor de música sobre o jongo, enquanto corria o intervalo na sala dos professores. Mencionamos a Serrinha e isso me lembrou de imediato o dia em que cheguei cedo à Feira das Yabás e parei em frente à roda de jongo que acontecia naquele instante.

Um menino, embalado pelo que via e ouvia, mexia o corpo miúdo, mostrando toda a desenvoltura dos pequenos que mal aprenderam a andar. Senhores e senhoras se cumprimentavam e dançavam revelando uma energia própria dos que jongam - como se a Feira das Yabás não tivesse ameaçada por uma prefeitura disposta a eliminar qualquer manifestação cultural de matriz africana; como se essa cultura, fortalecida por seus ancestrais, jamais pudesse ser eliminada por qualquer projeto fundamentado no preconceito. E quem via a roda de jongo sabia: ninguém apagaria mesmo o riso encantador, e por isso subversivo, daqueles que encaram a vida batendo palma, cantando e mexendo os corpos ao toque dos tambores.

Foi assim que Tia Maria viveu. Foi assim, pertinho do tambor, que ela se foi, numa despedida de pisar devagarinho no chão da Serrinha antes de seguir para o Orum. Ao longo dos 98 anos, atravessou a Sapucaí com o verde e branco imperiano e viu a escola que fundou voltar ao grupo especial com o campeonato de 2017, sabendo que seu quintal é maior que o mundo e que a poesia mora lá, em Madureira. Na Feira das Yabás, onde fui algumas vezes depois do dia em que vi o jongo, Tia Maria subiu no palco para mostrar o que confirmou recentemente ao jornal O Globo, em sua última entrevista: "Nasci com o jongo e vou com ele até o final, só paro de dançar quando Deus quiser". 

E foi ontem que Tia Maria parou de dançar, talvez porque soubesse, na calmaria daquele sorriso que convidava tudo quanto é gente para conhecer o jongo, que no Ayê continuarão dançando e entoando um canto fundamental: "Vai chamar quem mora longe, tambor". Machado!

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Confuso casarão


Show em homenagem a Wilson das Neves: enquanto o palco se reveste do verde imperial, Chico põe o chapéu para reverenciar o amigo, cantando “Grande Hotel” em seguida. E o público, que já sentia prazer em falar de sentimentos de outrora, se emociona sabendo que a hora do imperiano que nos deixou no ano passado não passa.

 

Em caravana de Madureira à Mangueira, Chico quis ouvir a batucada da derradeira estação. Neste Rio de ladeira e encruzilhada, o verde e rosa do palco me levou a 1998, quando a Sapucaí viu a vitória da escola com o enredo “Chico Buarque da Mangueira”. A comissão de frente que invadiu a memória com a ópera dos malandros fez Chico cantar um samba em homenagem à nata da malandragem, pisando nos corações de quem estava na plateia. Naturalmente pisou no meu, recordando que “As Vitrines” era a minha preferida, quando descobri os versos “Catando a poesia/ Que entornas no chão” na mesma época em que eu descobria o que era aquela coisa estranha de se encantar por alguém.

 

E encantamento foi o que não faltou na estreia da turnê no Vivo Rio, espaço que se transformou por algumas horas no confuso casarão onde os sonhos são reais e a vida não. Saudamos então o futebol, a filosofia de botequim, o jogar bonito e o não ganhar no grito, vendo o próprio tempo num relance, como se fosse a vida um jogo de bola no qual dedicamos o gol, traduzido aqui por qualquer realização que nos move, para quem será o nosso amor, para quem será a nossa paz.

 

Ainda que provem o contrário, Chico Buarque acalma: “Não se afobe, não/ Que nada é pra já”. Olho para ele cantando ali no palco, tão perto de mim, ainda sem saber que nossas mãos se tocariam no final do show, e penso que a gente acredita em Chico, nisso que ele nos diz em “Futuros Amantes”, como quem acredita mesmo no amor: já conhecendo os passos da estrada, colecionando retratos, procurando o desconsolo e voltando sempre a se enfeitiçar. Nesse retrato em branco em preto, o maestro soberano também foi lembrado numa apresentação comovente, tamanho o talento de quem já vai na estrada há muitos anos, um artista brasileiro.

 

Mas Chico não só acalma, também desconcerta e faz críticas num dia de real grandeza, tudo azul. Reiterando que há lugares cariocas para onde Jesus está de costas, as notícias de uma cidade imersa no preconceito são resumidas no trecho mais espetacular – e doloroso – do disco recentemente lançado: “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”. Em busca de uma sociedade em que esse grito não seja engrossado para que a covardia não nasça, o público aplaudiu o cantor, endossou o “Fora, Temer” e emendou um “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Ou doida era eu que escutava vozes.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

27 de setembro


Já peguei muito doce. Saía de mochila com a minha mãe, às vezes com primos e tias, e começava a manhã olhando atentamente para as casas. Rodávamos Piedade, Quintino, Cascadura, Abolição. Eu só voltava quando escurecia, sem aguentar mais andar, com um cansaço enorme que paradoxalmente não me impedia de chegar na ânsia de separar as balas, as pipocas, os doces embalados e os não embalados em bacias e potes.

Era certo comer churros com guaraná em Cascadura. Já subi ladeira correndo pra ser a primeira dos primos a pegar um saquinho com Kinder Ovo. E como corri. Eu, que nunca gostei de boneca, só me apeguei a uma que ganhei em dia de Cosme e Damião. Certa vez, estando a tarde toda na rua, fui pra casa apertada à beça pra ir ao banheiro, mas não deu tempo: me mijei na porta, antes de a chave virar. O importante era ter a mochila e mais alguns sacos lotados de doces.

Outro dia que não me sai da memória foi quando corri com meu primo até uma moça toda vestida de rosa, parada na porta de um centro, com saquinhos de doce na mão. Chegando lá, vi que ela, apesar de grande, falava como criança. Meus poucos anos de idade me fizeram franzir a testa e corresponder ao olhar perdido do meu primo. Pegamos o doce e saímos, provavelmente olhando pra trás. Contamos o ocorrido para os adultos que estavam com a gente, que riram do nosso espanto. Nem lembro se na ocasião me explicaram por que a moça falava como criança. 

Teve também a época em que minha vó entrou para a Igreja Universal e falava para mim que aquilo era coisa do diabo. Eu, porém, não deixava de comer e ria escondida da vó, que levava sua religião equivocadamente tão a sério a ponto de demonizar outras. O vô, que não seguia a religião dela, olhava para mim rindo também, e até chegava com um ou outro doce, para reprovação da vó e alegria da neta.

Acho que peguei doce até uns doze anos, e não há ano mais triste do que aquele em que a gente precisa parar, feito jogador que não pode mais correr em campo. Mas agora é a vez de experimentar o outro lado, o de dar doces e ficar desesperada, e feliz, com a fila gigante que se forma. Andar por ruas vazias em dia de São Cosme e São Damião, como aconteceu hoje pela manhã, me dá tristeza, receio da escassez de uma tradição.

Mas felizmente o subúrbio continua. Entre carros buzinando, crianças de chinelo, mães gritando, carrinhos de bebê cheios de doces, cadeiras na calçada e agradecimentos, a gente segue o curso de uma cidade que se cria e se redescobre em samba de dois-dois, com a molecada correndo e armando a lona no peito de quem é apaixonado por São Sebastião do Rio de Janeiro.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Pelos caminhos do mar


Havia um barquinho lá longe, onde a onda quebrava. A lua que embranquecia a escuridão da noite apontava para os cabelos pretos caídos nos ombros dela. As mãos abertas, como se dissesse que tudo aquilo era seu. Na minha cidade todo mundo é de Oxum, mas foi essa a história que o pescador me contou e me encantou.

Fiquei embaixo da cachoeira pensando como devia ser bonito ver o mar agitado mas sem força pra derrubar o barco. Qualquer outro seria derrubado, mas aquele não podia. Teve gente que não viu, que olhou na direção indicada pelo pescador mas nada conseguiu enxergar. Devia ser saudação a ele ou recado de que a calmaria não demoraria a chegar.

Há poucos dias, enquanto caminhava pelo Largo do Machado depois de escutar samba e ijexá, parei numa roda pra ouvir o batuque dos tambores de Olokun na rua. Saias rodadas, guias brancas e azuis, sorrisos de festa, coro entoado e maracatu. Era o Brasil no qual eu acreditava e do jeito que sempre vi. Na beira da praia, ouvindo as pancadas do mar. E ela apareceu. O mar cintilado, a água prateada, alumiada a gente. Foi o que cantaram os tambores.

De vez em quando eu admiro o mar e penso na imensidão da vida; lembro a história do pescador e ouço baixinho o batuque de Olokun. O vagar das ondas e o divagar da vista se perdem entre as águas. Embora muitos não vejam, há barcos que não viram com pancadas fortes, que seguem adiante. Eu fico na beira da praia, com os pés molhados na areia, ouvindo as histórias de pescadores e a música de Caymmi. É bonito aprender que o vento sopra o destino pelos caminhos do mar. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Nos Fla-Flus


Eu ainda tô respirando Fla-Flu. Acabei de assistir novamente ao excelente documentário “Fla x Flu - 40 minutos antes do nada” e me arrependi de ter perdido tantos Fla-Flus. Me arrependi de não ter ido aos jogos da época em que nem era nascida, e também de quando era criança (meus pais não me levavam ao Maracanã, eu que levei os dois). Só não vou nos próximos se estiver morrendo. Como vocês ainda vão ter que me aturar por muito tempo neste mundo, porque se tem uma coisa que eu gosto é de viver, estarei em todos.

Revendo o documentário, tive até vontade de abraçar Assis, o Carrasco. Assim como tive vontade de abraçar o Zico, o Leandro, o Júnior. A comemoração de gol do Maestro na final do Brasileiro de 1992 tá eternizada num boneco que fica na minha estante. Todo dia eu olho.

Quando falaram em tom de brincadeira com o Bial sobre o gol de 1995 do Renato, que se ele estivesse de cinta não o faria, Bial replicou: “E você já viu alguém jogar de cinta?”. No Flamengo já jogaram, há muito tempo, lá em 1927. Contam que Moderato tinha feito uma cirugia e meteu uma cinta abdominal pra entrar em campo e ser campeão em cima do América. Não era Fla-Flu, mas era muito amor ao time.

E o que importa no futebol, assim como na vida, são as nossas paixões. É o que nos impulsiona, o que nos move e o que faz a gente ser exatamente o que é. Fla-Flu é coisa séria. Não tem nada melhor. E que bom que nessa história o meu lado é rubro-negro. A emoção é enorme, tal como o bom humor, sobretudo porque somos campeões.

Um beijo aos vitoriosos amigos rubro-negros. E aos tricolores, conformados ou inconformados com a derrota de ontem, também. Sem vocês a gente não vive (até vive, mas não com tanta emoção).

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Canto a palo seco


“Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida”, disse a um amigo enquanto a roda de samba comandada pelo Chico Alves animava o Trapiche. E me senti incomodada quando me dei conta do que eu acabava de dizer naquele domingo. Belchior havia partido e o dia era de tristeza. Nos bares, bebiam Belchior; na Casa Porto, onde muito me arrependo de não ter ido, viviam Belchior; no Trapiche, sorrimos Belchior. Tudo é maravilhoso, nada é maravilhoso.

Eu ainda estava com o olho meio aberto, meio fechado, próprio da preguiça das manhãs de domingo, quando soube de sua morte. Confesso que nunca fui de ouvir muito suas músicas, mas passei o dia todo escutando. Lamentei não ter ouvido antes tantas e tantas vezes o coração selvagem que é exatamente como o meu, que tem essa pressa de viver. Nunca quero o que a cabeça pensa, mas sempre o que a alma deseja.

Com o Trapiche lotado, Chico Alves lançou um canto a palo seco que uniu vozes e sorrisos fundidos no pranto da criança que fomos e que ali recuperamos. Dançamos, cantamos e fomos felizes, como raramente temos conseguido ser neste tempo de silenciamento ao nosso grito desesperado em português e de repressão ao exercício democrático.

Percebi, então, que o que tornava aquele dia assustadora e despretensiosamente bom era a reunião de pessoas que acreditam, em meio à desesperança, na voz belchiorana que nos diz, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer. Descobrimos que Belchior vivia em cada um de nós, sabendo que o amor é uma coisa boa, e não estava proibido, portanto, ser esse um dos dias mais felizes da minha vida, porque, aliás, tudo é permitido, até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê.

Eu queria um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar, mas fui buscar esse gole no Sats, única saideira possível. Entre um e outro papo, entre um e outro chope, entre um e outro beijo, entre uma e outra saudade, amanheci implorando à vida que pisasse devagar: “Meu coração, cuidado, é frágil”. Porque sou de deixar de lado as certezas e arriscar tudo de novo com paixão.