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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Ninho

Meu conto "Ninho" foi publicado na 10ª edição da revista Contos de Samsara, que teve como tema a palavra "colmeia". Para ler o conto, que começa na página 45, basta acessar o link aqui e baixar o pdf da revista.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

Meu conto "Nó" foi publicado na 9ª edição da revista Contos de Samsara, que teve como tema a palavra "colmeia". Para ler o conto, que começa na página 153, basta acessar o link aqui e baixar o pdf da revista.



segunda-feira, 3 de abril de 2023

Alívio

Meu conto "Alívio" foi publicado na 8ª edição da revista Contos de Samsara, que teve como tema a palavra "útero". Para ler o conto, que começa na página 76, basta acessar o link aqui e baixar o pdf da revista.


sábado, 4 de abril de 2020

Quatro de abril


Ela acordou pouco antes das seis. A consulta estava marcada para antes das nove. Fez café, esquentou o pão, viu que a geleia de morango tinha acabado, regou as plantas e pensou em ir pro banho. Ouviu, mesmo de longe, uma melodia que não lhe era indiferente. Caminhou devagar em direção à janela. A cortina branca do vizinho esvoaçava, balançando serenamente. Aos poucos reconhecia a letra, o que fez com que começasse a batucar no parapeito, e recordava, de modo detalhado, o ano para o qual se deixava levar. 

O vizinho, que também acordara cedo, ouvia o samba de 1993. Naquela época ela já contava bons anos de desfile como baiana da escola. Lembrou que o compositor até foi intérprete, mas só nesse ano em que as vozes vindas do Morro dos Macacos sopravam o antídoto para pôr fim a qualquer mal: pra salvar a geração só esperança e muito amor. 

Não podia se atrasar para a consulta, mas as recordações não cessavam. Sua neta havia acabado de nascer, portanto era a primeira vez que entrava na Avenida tendo o título de avó, as lágrimas descendo toda vez que cantava a criança é a esperança de Oxalá. E até hoje se emocionava com essa possibilidade de tudo, em meio a ruínas, ser resgatado: 

Então foram abertos os caminhos
E a inocência entrou no templo da criação
Lá os guias protetores do planeta
Colocaram o futuro em suas mãos 

Cantou o samba todo, o café esfriando na xícara, o barulho dos passarinhos cada vez menor. No dia do nascimento da neta, teve a sensação exata, ao olhar nos olhinhos miúdos da pequena, de estar diante da esperança de Oxalá. Era cantando Gbala que embalava a menina no colo, admirando o quartinho todo branco e azul. Sabia que, quando ela crescesse mais um pouco, entenderia o amor ao pisar descalça no chão da quadra. 

Tomou um banho rápido e vestiu a roupa que já estava separada. O vizinho repetiu o samba. Faltava meia hora para o jogo de búzios e ela não desmarcaria porque a última consulta tinha sido em dezembro. Gostava de acalmar o coração, de saber o que estava por vir. Fechou a porta cantarolando Gbala, lembrando a neta pequenininha, feliz por hoje a menina ser também torcedora da escola, apaixonada a ponto de chorar ao serem campeãs e de ter a resposta certa pra qualquer um que chegasse falando de outra agremiação: sou da Vila, não tem jeito. 

Quando guardou a chave na bolsa e prestou atenção no símbolo do chaveiro, só aí se deu conta. Era quatro de abril. Anos e anos atrás, em 1946, estava fundada a Vila Isabel. Então, foram abertos os caminhos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Voo

Paisagem de subúrbio, Di Cavalcanti

Me esquivei do primeiro carro com o sinal ainda aberto, na porta do sacolão um moço anunciava o preço das frutas, duas mulheres com sacolas na mão me olharam e eu vi a testa delas franzida; sinal vermelho, continuei correndo mas agora sentindo um pouco mais de segurança, lá em casa ninguém sabia onde eu tava, se meu pai me vê descalço aqui começa a encher o saco, minha mãe com certeza ia dizer que o que falta pra mim é reza; é claro que eu senti medo, mas a adrenalina era muita e não tinha como eu ficar parado com os moleques mais novos na rua lá de cima, duvido que meu pai na minha idade não correu assim também, e minha mãe falava muito mas eu sei que no fundo ela sabia que não tinha mais jeito; era a primeira vez que eu fazia isso, me metendo no meio dos outros desesperado, mas vai dizer que daria pra ser diferente, não dá, o único jeito é deixar o chinelo na calçada e correr, torcendo pra não trombar com gente mal intencionada, com a polícia que me pararia, nem com senhorinhas que se desesperam quando eu passo perto; era a minha primeira corrida no sinal e na calçada e nos becos, sem olhar pra trás, sem achar que eu tava errado, driblando os pés de quem andava na calçada, me esquivando de fios pendurados no poste, movendo o corpo com cuidado pra não esbarrar em ninguém, rezando pra não dar de cara com meu pai também, se bem que a essa hora ele com certeza cortava madeira no fundo da casa; eu não sei como conseguia correr tão rápido, olhando sempre tudo passar voado do meu lado, árvore, carrinho de bebê, moto, mesa de bar, cadeira de bicheiro, banca de jornal, garrafa de cerveja, lixo encostado no muro, orelhão, tudo passava batido, eu vendo só as cores, nem reparava as pessoas me olhando, me julgando, com medo, apontando pra mim, querendo saber o que acontecia; acho que isso tudo durou uns quatro minutos, mas parecia uma hora de pés descalços no asfalto quente, o sol todo em mim, nem sei como eu chegaria depois em casa, suado, fedendo, o pé com a sujeira encruada, mas na verdade eu nem pensava nisso na hora, só corria como quem fugia de alguém muito perigoso ou de algo que amedrontava; dobrei a esquina na esperança de não ter corrido em vão, olhei pra trás, uns dois caras vinham correndo na mesma direção, fiquei cismado e sei lá como consegui mais disposição, vi que tava perto, muito longe dali não dava pra ser; quando virei na praça, dei de cara com ela quase caindo no chão: era a primeira pipa voada que eu pegava na rua.

*Conto publicado na coletânea Prêmio Off Flip 2022: conto, lançada na FLIP, em Paraty, no dia 25 de novembro de 2022.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O eco dos três apitos

Meu pai contou-me que, quando chegava dezembro, todos os moradores da nossa vila esperavam, ansiosos, a chegada de Noel. Eu nunca o tinha visto, mas sabia, porque era transmitido de boca em boca, que ele alegrava os caminhos a cada esquina que passava, ficava na rua por toda a noite e só ia embora quando o galo cantava.

Eu, menino, queria ser como ele, mas meu pai dizia que outro Noel não podia existir, não; que só ele conhecia a nossa vila e traduzia tão bem a nossa cidade, e que já era demasiado tarde para que me contasse as peripécias do meu anti-herói. Eu sempre dormia com a música cadenciada que vinha da antiga vitrola do meu quarto e, ao acordar com o canto do galo, lembrava que a essa hora Noel estaria deixando as ruas, andando calado pelo Boulevard.

Meus amigos falavam-me como ficavam surpresos com os presentes do Noel que os visitava sem que soubessem, mas o meu Noel só carregava consigo um violão. E eu desconfiava que era mais feliz do que meus pequenos companheiros de pião e bola de gude, porque meu presente era ouvir as canções que meu pai ouvia comigo. Eu bem sabia que muitos daqueles presentes não durariam muito tempo e eles logo quereriam outro, enquanto nada havia de fugaz no canto sereno que, ao ser reproduzido na vitrola, fazia-me sorrir junto de meu pai.

Naquela época, os homens estavam ávidos por modernidade, querendo imitar gente de fora do nosso povoado - concepção que permeia várias mentes até hoje. Com isso, muitos prezavam pelo afastamento do morro e da cidade, acreditando que modernização não tinha a ver com diversidade e humanidade. Mas Noel não era assim, não. O que ele compunha era sempre uma mistura, uma fusão da nossa vila com o morro que também era nosso. Ele prezava por samba, prontidão e outras bossas... Coisas nossas.

Introduzindo o Pierrô, a Colombina e o Arlequim no botequim, o Carnaval de Noel era diferente; não tinha falso malandro nem era ordenado por aquela gente dispensável que se acha no direito de ser chamada de doutor. Ele fazia o confronto entre o malandro pronto e o otário que nasceu pra milionário, e meu pai tinha razão ao dizer que o sambista da Vila era quem tinha razão... A razão dá-se a quem tem.

Noel deixou saudade, mas não deixou mudo um violão. Como diz o samba de 1994 da azul e branca, os três apitos cantados por ele ainda ecoam pela Vila Isabel. Suas letras, deboches e piadas soam como feitios de oração a quem, assim como ele, não vive escravo dessa gente que cultiva hipocrisia. Os versos que meu pai mostrou-me, de Zé Ramos sobre Noel Rosa, demonstra essa falta que ele passou a fazer quando se encantou: "Da cidade alta da Mangueira/ Avisto a Vila e sinto saudades de alguém..."

Mas aprendi com Drummond, o poeta de Itabira, que "não há falta na ausência", e passei, como ele, a não mais lastimar a falta. E é assim que eu entendo Noel, profundamente vivo nos corações suburbanos: ausente de São Sebastião do Rio de Janeiro e de Vila Isabel, a sua aldeia, faz-se presente nos botecos e nas esquinas que são palcos de inspiração e nos sorrisos das damas de cabarés que inspiram uma composição.

Por tudo isso acredito que deveria ser feriado no dia 11 de dezembro e que o Noel esperado e venerado desse mês deveria ser o de Medeiros Rosa. Assim, como se fosse o último desejo de meu pai, registro que, quando estiver com meu moleque no colo, ouviremos Noel, para que eu possa vê-lo sorrir e aprender a cantar a brasilidade do poeta da Vila e os encantamentos do nosso Rio de Janeiro.