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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O amor que não vivi

A persistência da memória, Salvador Dalí

O amor que não vivi mostrava carinho,
Me fazia versos sem exigir resposta,
Me espreitava e oferecia seu ninho...
Mas eu, indisposta, fazia outro caminho.

O amor que não vivi olhava o relógio
Sempre à meia noite de um novo janeiro.
Enquanto eu insistia em não ver o óbvio,
O telefone tocava ao andar o ponteiro.

O amor que não vivi me deu um presente.
Sem um porquê me trouxe de repente
As músicas que poderiam me alertar:
Não precisa doer pra amar.

O amor que não vivi foi insistente,
Mas eu, menina, não ligava pro possível.
Imersa numa imaginação entorpecente,
Só me interessava decifrar o ilegível.

O amor que não vivi esteve a meu lado
Mesmo sabendo que eu era distraída.
Hoje, vendo tudo isso já terminado,
Penso no que poderia ter sido a vida.

O amor que não vivi não era fantasia:
Se ao nosso tempo eu buscasse retornar,
Veria que a vida realmente valia
O sorriso que ele tinha pra me dar.

domingo, 17 de maio de 2020

Soneto da angústia


Recebo mensagens dos meus amigos
Estão cheios de angústia os nossos tempos
Inquieta nesse quarto então invento
Memórias que mascarem o perigo

Tiro do armário aquele meu pandeiro
Com saudade das rodas que frequento
Entre cervejas escrevo o lamento
Foi-se o Aldir, um ídolo brasileiro

Nesses dias cercados de agonia
Choro pelo meu país que se esvai
Jamais indiferente a alheios ais

Cada perda me lembra a tirania
Que ignora quem este vírus contrai
E ri de um Brasil que ficou pra trás

domingo, 17 de março de 2019

Um poema pra Mangueira


Nesse carnaval eu fui Mangueira
De verde e rosa me pintei e me vesti
Na Sapucaí defendi sua bandeira
De brava gente feito Beth e Leci

Nesse carnaval eu vi Dandara
Guerreira negra destemida
E chorei ao cantar na quadra
O samba da Manu da Cuíca

Entre serpentinas e confetes,
ouvi a voz das Marielles
Baiana, rainha, porta-bandeira
É das mulheres a Estação Primeira

Ali outro Brasil foi emoldurado:
na chuva sambava o menino
e um grito jamais silenciado
revelou ao país um novo hino

De duas cores se vestiu a quarta-feira
Vibrei com as notas da apuração
E sei que corro o risco de meu coração
Em outro carnaval bater pela Mangueira

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Para os homens que amei


Vieram cheios de passado
os homens que amei.
Sem que isto importasse,
talvez fosse eu a culpada
por me negar a quem chegava
sem histórias, papel em branco.

Vão agora sem que haja pranto,
depois de muito reencontro,
pouco que seja, vão andando
sem aceno, mágoa ou raiva;
quando quiserem, olhem
para trás (eu, outra, sempre
estou no mesmo lugar).

Se me ausento, é para não remoer
nem querer esquecer ou lamentar 
o que por vezes retorna, imerecido;
se sorrio, e eu sempre sorrio, 
é porque sei que fomos impulso
e que há lugares invisíveis onde
ficam guardados os meus Rios:

as ruas pelas quais passamos,
de mãos dadas, num abraço 
partido, em silêncios avulsos
ou algumas lágrimas caídas 
sob pandeiro na mesma roda
em que olho e bebo e laço.

Se foram cheios de futuro
os homens que amei.
Sem que lhes contasse,
mais futuro tinha eu: 
com um grande amor 
que parecia deles mas
no fundo era todo meu.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A parte ida

Ao lado de meu avô,
meu tempo era de barco
(navegação que dita aonde vou,
esparso rio à disposição 
de criança que vê tudo a cor).

Com meu avô a tempo,
poucas ondas observam o curso
do rio escasso; perigo do vento
no percurso se elimina, e fica
só a miúda embarcação construída,
pequena neta instruída, a ida.

Mas chega também partida
no todo tempo de meu avô;
a margem comporta o barco 
(e a vida) que com ele sou:
dividido deslocamento amargo
seca rio, disseca água, apaga cor.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Incômodo

aqui, no escuro do frio,
a porta trancada e às avessas
paisagens, miragem de baldio
espaço arterial, e boca ilesa
que só rio,

ressecado cômodo incomoda
(como caco desaconchegado, 
prego entranhado, amor em
longe lado) e torna acre a hora
que em abismo se afoga,

aqui, na roda do tempo,
na rota que invento, recorto
pedaços de riso, recordo 
traço em divisa, e lembro,

no incômodo acomodado  
(a agonia se sente acolhida)
da casa: faz uma falta fodida
calar teu sussurro inebriado.

sábado, 6 de julho de 2013

Cadeira de balanço

sabendo que não mais estavas lá,
perto da cadeira de balanço,
senti as miudezas que o chorar
infere no descanso

atravessei o caminho de sempre
querendo ouvir histórias sem data
e vi o muro vazio no presente
de um futuro promissor do nada

guardei imagens e escritos:
existia voz na mudez ao redor,
e existia no inaudível a avó,
a parte que havia partido

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Desperta dor

Em meio a cacos e destroços
Está minh’alma quebrada 

Não são vidros nem remorsos
Mas uma poesia delatada

Apenas palavras ao vento
Sem método ou reflexão

Para designar sentimentos
Que frios mostrar-se-ão

Lágrima escorre e desgasta
O rosto que não sorri

E só o tempo não basta
Para devolver o que senti