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sábado, 23 de setembro de 2023

Estranha forma de vida


"Estranha forma de vida", o curta de Almodóvar que está nos cinemas, é esplêndido. E saí da sessão impressionada com tudo o que Almodóvar falou na entrevista - posterior ao curta -, que dura bem mais que meia hora. 

O filme tem como foco as vidas entrelaçadas de dois homens em um cenário atípico porque historicamente machista: o faroeste. Com personalidades bem diferentes, um é mais carinhoso e sentimental, enquanto o outro coloca as leis acima de seus desejos. 

O curta nos faz pensar em questões que envolvem masculinidade pela relação homossexual no gênero faroeste, em etarismo, e nos faz prestar atenção em curiosos detalhes do erótico: como explica Almodóvar, não houve interesse em mostrar cenas de sexo, mas em revelar o erótico a partir de palavras desnudas. 

Tornar as palavras desnudas é como escrever um poema, fazer literatura. Por isso, mas não só, "Estranha forma de vida" é tão bom.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A boneca


"A filha perdida" faz uma filha admirar ainda mais sua mãe - foi o que senti assistindo ao filme. Sendo uma mulher de 29 anos, sem filhos, me coloquei no lugar das personagens mulheres e entendi todos os seus conflitos, o que me fez pensar no tanto que minha mãe já encarou, já suportou, já abriu mão por minha causa. 

A narrativa, baseada no livro homônimo de Elena Ferrante, conta a história de Leda, que tem duas filhas, e de Nina, que tem uma. Em uma viagem, ambas se encontram - a segunda com a filha, o marido (que chega depois), a família; a primeira, por sua vez, sozinha, sem as filhas, sem marido, sem família.

Ao longo da trama, conhecemos o passado de Leda, professora universitária que na juventude queria cuidar de sua carreira, de seus desejos e de seu sossego, enquanto as filhas, pequenas, queriam brincar com ela, faziam bagunça, gritavam, riam, brigavam, respondiam. O pai não ficava sobrecarregado como a mãe; diferentemente desta, tinha a possibilidade de colocar sua vida profissional em primeiro lugar. Até que Leda sai de casa por três anos, um período, como confessa para Nina, maravilhoso em sua vida. Nesse instante do diálogo entre as duas, o olhar de Nina para ela é de compreensão, de uma ponta de inveja por querer fazer o mesmo.

As mães desejam também fugir. As mulheres desejam também se dedicar à carreira. As mulheres desejam, sentem tesão, querem um tempo pra se masturbar com tranquilidade, virar para o lado e dormir. Muitas são impedidas, no entanto: é preciso brincar, chamar a atenção da filha, fazer comida para ela, aturar uma puxada forte de cabelo, uma mãozinha pequena cutucando suas costas, sua barriga, seu rosto, seu olho, sua perna. Enquanto isso, o pai toma cerveja na beira da praia conversando com os amigos. Quando a mãe sai de perto, exausta por discutir com o pai, por estar o tempo todo tomando conta da criança, por suportar um peso enorme nos ombros, a filha some. O pai não vê, distraído com a conversa, de costas para a menina. Lá está na areia, sozinha, a boneca com a qual ela brincava. 

E vale recordar uma cena que precisa ser destacada: a boneca caída no chão da casa, com uma lesma saindo de dentro de sua boca, uma imagem que causa asco. É a cena que, para mim, resume o filme. Há nela a boneca, esse brinquedo tão representativo não só na vida real, mas sobretudo no filme; e há um bicho que sai de dentro da boneca, fazendo com que o sentimento de ternura vinculado ao brinquedo seja substituído, ao menos nesse momento, pelo de repulsa, algo aparentemente incomum. 

E me parece ser assim, por mais duro que seja, a maternidade. Enquanto a boneca representa tudo o que há de positivo em ser mãe - o amor, o carinho, o aprendizado, a doçura, o encanto -, a lesma se relaciona ao que há de negativo nisso - o cansaço, a exaustão, a falta de tempo para si mesma, a impossibilidade de chegar a outros sonhos. Antes de o bicho sair da boca da boneca, sai dali uma lama, uma gosma, o que causa estranhamento e traduz o significado de ser mãe: muitas vezes, a mulher fica de saco cheio, sem disposição. A meu ver, a gosma suja que sai da boca da boneca, mais de uma vez, tem a ver com esses momentos de impaciência, que vão se somando ao longo do tempo, e a lesma diz respeito à coragem (que também é condenação) de ir embora, de fugir, de se libertar.

Em suma, "A filha perdida" nos mostra que os sentimentos de ternura e delicadeza da maternidade por vezes podem dar lugar ao de impaciência e repulsa. Afinal, assim como ocorre com o pai, a mãe quer atender a um telefonema importante e poder não interromper a ligação.

domingo, 12 de junho de 2016

Nada em troca


Depois de ter visto O segredo dos seus olhos, um dos meus filmes favoritos, Ricardo Darín também se tornou um de meus atores preferidos.

Há poucos dias assisti a um filme em que sua brilhante atuação é percebida em gestos mínimos, em hesitações, em sorrisos forçados. Ele interpreta Julián, um homem diagnosticado com câncer terminal.

Quando a porta de sua casa abre pra receber o amigo que veio do Canadá, a expressão de Julián já demonstra a profundidade do filme. Truman revela inquietudes por meio do silêncio.

Apesar desse silêncio, Julián não é um homem que evita falar o que sente, diferentemente de Tomás. Sem hesitar em afirmar que o que importa mesmo são as relações que temos ao longo da vida, como a amizade entre os dois, ele ainda faz questão de dizer ao amigo o que este lhe ensinou. Tomás tenta mudar o assunto, por ser contido e meio sisudo, mas Julián insiste em dizer que aprendeu com ele que não devemos pedir nada em troca àqueles de quem verdadeiramente gostamos.

Julián, desejando alguma manifestação do amigo, pergunta o que Tomás havia aprendido com ele depois de tantos anos de convivência. E a resposta diz respeito à coragem: "Você sempre encarou tudo". De fato, surpreende a maneira racional como ele encara a morte, a ponto de ir a uma funenária consultar os planos oferecidos. É nesse momento, aliás, que se dá conta de sua insignificância: em caso de cremação, as cinzas cabem em uma caixa bem pequena.

Por ser um filme realista, as reações das pessoas podem não ser como esperamos. Quem tem dificuldade de expressar sentimentos não muda de uma hora pra outra, nem em uma situação extrema referente à morte de um amigo. Tomás, por exemplo, retorna de viagem sem conseguir dizer a Julián o quanto o acha incrível. A frieza incomoda, mas é real.

Com a agonia de saber que alguém está em seus últimos dias de vida, em Truman percebemos o tempo passar nos mínimos detalhes do dia a dia, como no taxímetro rodando ou na colher mexendo o café. Cada minuto ganha uma importância inimaginável.

Preocupado sobretudo em achar alguém minimamente confiável para adotar o cachorro nesses seus últimos dias ao lado dele, Julián faz o que pode  —  até mesmo o que a rigor não poderia  — para que não fique sozinho após sua partida. E emociona ao deixá-lo passar um dia na casa de uma possível família adotiva.

Embora Truman não apareça tanto nas cenas, longe de abordarem uma história como a de Marley & eu, faz todo sentido seu nome ser o título do filme. Além do mais, tempos depois das gravações, o cachorro que interpretou Truman faleceu e Darín chorou por uma semana. O que importa, afinal, são as relações que estabelecemos ao longo da vida.

Após quase duas horas de convívio com Tomás, dá pra gente também aprender que não vale a pena silenciar tanto o amor.

Assim que o filme terminou, desliguei a televisão e me lembrei de quando decidi tirar a máscara que usamos diariamente e dizer “eu te amo” àqueles que são importantes pra mim. A vida passa a ter leveza. E pra isso nem precisamos de uma data especial.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Regresso


Depois do sucesso obtido em Birdman – o longa foi premiado no Oscar como melhor filme, fotografia, roteiro original e direção –, o diretor mexicano Alejandro González Iñarritu leva às telas uma adaptação do romance de Michael Punke, The revenant: a novel of revenge. O Regresso mostra as inóspitas e surpreendentes condições de sobrevivência de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um guia de uma expedição de caça que, após ser gravemente atacado por um urso, é abandonado por iniciativa de Fitzgerald (Tom Hardy), principal encarregado de acompanhá-lo até o momento de sua morte. Além disso, o filme também gira em torno da vingança de Glass em relação a Fitzgerald por este ter matado seu filho. No roteiro de Iñarritu e Mark Smith, o assassinato funciona, dessa forma, como impulso que motiva toda a jornada do protagonista.

Impressiona no filme o realismo das cenas, sobretudo no momento do ataque do urso, em que a agonia, o nojo e a compaixão com o personagem são automaticamente acionados no espectador que se encontra ansioso para que o embate logo termine. Ao mesmo tempo que essa proximidade com o real seja valiosa para o filme, existem pontos, porém, que se distanciam de uma realidade plausível, como a relativamente rápida recuperação do protagonista ou até mesmo o fato de ele não ter perdido sua garrafa enquanto era arrastado nas águas por uma brutal correnteza. Os detalhes duvidosos, contudo, ainda comprometem menos a narrativa do que os flashbacks relacionados à vida pessoal de Glass, que surgem inoportunamente e que poderiam ser descartados sem que a compreensão ou a dramaticidade fossem prejudicadas por isso.

No entanto, o trabalho técnico de O Regresso se revela incrível pelas perspectivas proporcionadas pela câmera, seja na batalha inicial contra os índios – o público acompanha todo o conflito diante de uma lente que capta os homens, um a um, à medida que são atingidos, fator que o aproxima ainda mais desse momento caótico –, seja no foco em relação aos personagens, de modo que a aproximação permitida pelos closes manifesta também uma aproximação a suas experiências emocionais, como acontece, por exemplo, quando percebemos toda a dor de Glass no instante em que a câmera registra de muito perto apenas o seu rosto após o ataque do urso. Outro aspecto que desperta a atenção é a opção do diretor de destacar e, mais do que isso, lembrar que há alguém por trás da câmera: é o que ocorre quando a lente embaça com a respiração do personagem ou, ainda, quando é manchada por respingos de sangue provenientes da luta final entre Hugh Glass e Fitzgerald.

Diante dessa câmera que o flagra tão de perto, Leonardo DiCaprio tem uma atuação brilhante no filme, sobretudo porque grande parte de sua comunicação não ocorre por uma linguagem verbal, o que consiste na alta capacidade do ator de expressar-se fisicamente, por meio de respirações pesadas e sussurros e em sua total entrega para isso. Tom Hardy, que interpreta o antagonista Fitzgerald, também se destaca ao ser capaz de apresentar um vilão cujas expressões faciais já bastariam para revelar sua insanidade e sua falta de altruísmo. O simples modo de falar, com uma dicção não tão nítida, por exemplo, é outra característica que particulariza esse personagem que demonstra a todo tempo impaciência e fúria.

Ainda que DiCaprio tenha feito um trabalho admirável – considerando também os sacrifícios como ter de comer fígado cru, enfrentar temperaturas muito baixas e carregar uma pele de urso de quase cinquenta quilos –, a construção de seu personagem não parece tão profunda quanto poderia ser. Foi brilhante, mas não impecável. Fica para o espectador a sensação de ter se comovido mais com o ator Leonardo DiCaprio, devido às condições a que se submeteu para que o trabalho desse certo, do que com o personagem Hugh Glass, que sobreviveu ao ataque de um urso, viu o filho morrer e percorreu uma jornada dificílima para se vingar.

Com suas doze indicações ao Oscar, o inegável acerto de O Regresso, a meu ver, é a fotografia. O trabalho de Emmanuel Lubezki é o que dá mais vida ao filme, o que mais comove a plateia e o que mais a insere de algum modo na trama. As paisagens que aparecem na tela e, principalmente, a maneira como elas são registradas expressam incrivelmente o plano emocional da história, como se cada imagem proporcionasse uma reflexão acerca do sofrimento de Glass. Nesse sentido, o conjunto da obra é favorecido e O Regresso se afirma como um bom filme.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Vivendo Vinyl


Não vivi os anos 70, mas estou vivendo Vinyl. Parei pra ver o episódio de duas horas que estreou no domingo apenas na quinta-feira. Mesmo desconfiando de que viria coisa boa por se tratar de um trabalho de Scorsese e Mick Jagger juntos, assisti sem muita expectativa e sem esperar nada mais do que a temática abordaria: sexo, drogas, rock’n’roll. Só que foram duas horas de cenas que me prenderam até o fim em um piloto nem um pouco cansativo.

Embora eu não tenha vivido os anos 70, passei a conviver com um Richie Finestra sendo muito bem interpretado por Bobby Cannavale. Richie é um executivo de música que adora o que faz e, inquieto e inconsequente, enche os olhos de lágrimas ao entrar em uma casa de show pequena e ver e sentir o que uma banda fazia em cima de um palco também pequeno. Mas ali tudo se revelava grandioso aos olhos do personagem. Richie comove quando se vê diante do fracasso, como acontece no momento em que, alucinado, toca guitarra em pé no sofá da sala, faz o filho sorrir sem entender e decepciona a esposa.

Fundador e presidente da American Century Records, gravadora que no início da década de 70 corre o risco de ser vendida à PolyGram, ele tenta encontrar um meio de recuperar o sucesso de sua empresa e, ao mesmo tempo, precisa lidar com problemas pessoais que o levam a uma crise existencial. Um de seus conflitos internos, por exemplo, se refere ao caso de Lester Grimes (Ato Essandoh), um cantor de grande talento que colocou sua carreira nas mãos de Richie mas não obteve resultados satisfatórios com o empresário que se viu obrigado a abandoná-lo.

Por meio de tudo que ocorre na vida do protagonista, Vinyl explora a indústria musical por uma ótica interna proporcionada por quem acompanhou isso de perto e, portanto, contextualiza muito bem o período. Somando a experiência de Mick Jagger a características próprias de Scorsese, como as cenas violentas das quais não abre mão, a série mostra que uma flor pode nascer na rua e furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, porque revela a beleza por trás de um ambiente torpe. De alguma forma, a gente acaba vivendo os anos 70. E diante da vida que desperta em quem está assistindo, Vinyl tem tudo pra dar certo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A pena no chão


Depois de assistir a O Artista, filme que, provavelmente e merecidamente, será premiado no Oscar de 2012, não pude deixar de registrar minha cena favorita. Dos nove indicados – com exceção de Tão Forte e Tão Perto, que eu ainda não vi -, meu preferido é Os Descendentes, e acho, inclusive, que George Clooney merece muito o prêmio de melhor ator. No entanto, acredito que a Academia entregará a O Artista a estatueta de melhor filme.

Pois bem. Diante da metalinguagem presente na trama, vemos um astro do cinema mudo de sua época tentar combater a imposição da grande novidade do filme falado, que ganha o público com o avanço da indústria cinematográfica. Assim, George Valentim (Jean Dujardin) torna-se, além de ator, diretor e produtor de seus próprios filmes, a fim de um possível reconhecimento de que o modelo tradicional ainda possui seu valioso espaço. Contudo, mesmo com todo o esforço, passa a conviver com o fracasso de algo considerado obsoleto, enquanto Peppy Miller (Bérénice Bejo), artista que obteve seu auxílio ao iniciar a carreira, transforma-se na enorme atriz do cinema falado. O sucesso de George, então, só é recuperado de vez com a ajuda dela.

Feita essa breve contextualização, destaco aqui a cena que mais me chamou a atenção. Houve outras que achei fantásticas, como a conversação do personagem com sua própria sombra, mas registro o momento que gira em torno do genial jogo entre som x silêncio, representado pela inquietude de George em um sonho: ele, completamente avesso à ascensão do cinema falado, percebe os ruídos emitidos pelos objetos ao serem tocados, o que ocorre no mesmo instante em que sua voz se silencia. A cena dá-se pelo seu espanto ao ouvir o barulho de um copo posto sobre um móvel, continua com a sua perturbação exposta ao jogar outros objetos para certificar-se do som, juntamente com o cachorro latindo, o telefone tocando e mulheres gargalhando, e termina com o tom explosivo de uma pena caindo no chão. É como se o externo ganhasse voz e vez enquanto seu interior, por outro lado, perdesse o valor.

Nessa mesma perspectiva sobre interior e exterior, a vontade manifestada pelo personagem de querer manter o sucesso do cinema mudo transcende a própria história e passa a ser vista autêntica e veridicamente. Ou seja, embora o protagonista de O Artista tenha de lidar com o êxito atribuído à inovação dos filmes por meio da fala, o que se tem, agora, é a indicação de um filme mudo e em preto e branco ao Oscar, depois de já ter recebido o Globo de Ouro. Valentin ficaria orgulhoso se pudesse sair da história de Michel Hazanavicius e ver o sucesso que o cinema mudo tem feito no mundo real.