sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A culpa deve ser do sol


Comecei a ler O sol na cabeça numa manhã a caminho do trabalho e, diferentemente do que pensei, não deixei para terminar a leitura no dia seguinte, porque só consegui apagar a luz do quarto pra dormir quando o último conto acabou. E já de início, enquanto a gente acompanha o “rolézim” na praia, inevitavelmente lembra as caravanas do Chico, um sol de torrar os miolos quando pinta em Copacabana a caravana de um neto e um sobrinho que, pra driblar a polícia, mentaliza o Seu Tranca Rua da avó e o Jesus das tias.

Em “a história do Periquito e do Macaco”, a ligação que o final da narrativa estabelece com o primeiro parágrafo traduz exatamente a tensão resultante da atuação policial no morro, fazendo com que o leitor reflita sobre questões como a indignação seletiva, o racismo por parte das autoridades representativas do estado, a humanidade de pessoas muitas vezes vistas e tratadas como desumanas e o binarismo que reproduz os conflitos de uma cidade partida.

O conto inicia com a perspectiva de quem acompanhou de perto a implementação da UPP: “Quando a UPP invadiu o morro, era foda pra comprar bagulho. Maior escaldação; ninguém queria botar a cara pra vender, só tinha criança trabalhando de vapor. Uns moleque de oito, nove anos. Tinha vez que sentia até pena de ver as criança naquela situação, mas o papo é que a gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que dá e passa rápido; geral continuou comprando droga”.

Lá na sétima página, quando sabemos que o uso abusivo do poder por parte do policial tinha sido o gatilho pra uma armadilha contra ele, o último parágrafo comenta novamente o sofrimento das crianças, mas, desta vez, o narrador se refere a outras crianças: “Depois que não acharam de jeito nenhum o corpo do Cara de Macaco, saiu uma foto no jornal falando assim: ‘Filhos choram no enterro simbólico do tenente Roberto de Souza’. Papo reto, até eu que odeio polícia, na hora senti um pouco de pena, vendo as criança naquela situação”. A respeito da relação deste com o primeiro parágrafo (destacado acima), é o leitor que, sem esforço, pode identificar.

Tanto esse como outros dos trezes contos do livro exploram aspectos linguísticos próprios da oralidade e do grupo social específico selecionado pelo autor para protagonizar O sol na cabeça, a exemplo das gírias e da ausência de concordância, tudo em prol de valorizar uma identidade não só social, mas também cultural. É nesse sentido que a literatura de Geovani Martins surge como novidade no cenário contemporâneo, dialogando com uma realidade que muitas vezes é negligenciada pelo discurso literário.

As experiências de vida do autor nas favelas do Rio são notavelmente refletidas em sua produção escrita, que alia aspectos reais e imaginários para gerar uma ficção dotada de senso crítico e sensibilidade. Conceição Evaristo falou sobre essa relação em entrevista ao jornal Nexo, em maio de 2017, ao explicar seu conceito de escrevivência: “Eu acho muito difícil a subjetividade de qualquer escritor ou escritora não contaminar a sua escrita. De certa forma, todos fazem uma escrevivência, a partir da escolha temática, do vocabulário que se usa, do enredo a partir de suas vivências e opções”. Contaminado, portanto, pela subjetividade do escritor, O sol na cabeça se destaca pela originalidade no universo da literatura brasileira contemporânea.

Publicado originalmente no Além de Machado.

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