domingo, 9 de outubro de 2016

O grande mal


O grande mal a que Machado de Assis se referiu em 1892, e que citei na crônica passada, parece não estar muito perto do fim. No dia 7 de agosto daquele ano, o escritor publicou que, em eleição da época, “o eleitorado ficou em casa” e “uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas”. No domingo passado, vimos que mais de 40% dos eleitores se recusaram a votar, deixando os votos divididos em 24% abstenções, 12% nulos e 5% brancos. Independentemente de ser isto indiferença, descrença ou abstenção, todos concordam que é um grande mal, como ressaltou Machado.

Diante de uma atual crise de representatividade política, evidenciada pelo cenário das eleições, essa semana despertou também a atenção para a crise de representatividade de um partido, na carta aberta aos membros da REDE, redigida por Luiz Eduardo Soares. Nela o sociólogo argumenta, em nome de outros que também se desfiliaram, que “a sociedade brasileira não sabe o que pensa a REDE, nem consegue situá-la no espectro político-ideológico”, alegando falta de posicionamento do partido em temas centrais, como a ausência de crítica fundamentada ao governo Temer, e relembrando posições assumidas de maneira equivocada e dissociada de seus ideais de formação, como a aliança com o PMDB e a postura favorável ao impeachment da presidente Dilma.

A atitude de Luiz Eduardo Soares me levou ao tempo em que tive contato com seus materiais a respeito de segurança pública — textos, entrevistas, vídeos — e reconheci a importância do tema. Foi lendo um de seus livros, aliás, que passei a me interessar pela trajetória do Brizola. Meu casaco de general é leitura necessária numa sociedade que confunde direitos humanos com defesa de bandido. E o livro registra que, “em 1982, a vitória de Leonel Brizola significou a suspensão da famigerada política do ‘pé-na-porta’, que durante a ditadura caracterizava o comportamento policial nos bairros pobres e nas favelas”. Quando Moreira Franco foi eleito em 1986, contrário aos direitos humanos e ao humanismo de Brizola, resgatou a prática do “pé-na-porta” e entregou o governo em 1990 com o maior índice de criminalidade da história do Rio. Ele havia prometido acabar com a violência em seis meses, mas só conseguiu provar que o descompromisso com os direitos humanos apenas piora a situação da segurança pública.

Apesar de tudo, essa desrespeitosa prática da ditadura continua hoje em dia, agora com legitimidade: o STF decidiu que a polícia tem o poder de entrar em casas sem mandado. Infelizmente não aprenderam com as decisões negativas de Moreira Franco, nem com as intenções positivas de Brizola. Por mais que muitas vezes insistam em incutir na gente o contrário, outro livro do Luiz Eduardo Soares dá o recado: Segurança tem saída. Só não dá pra tentar encontrar essa saída por meio do uso abusivo do poder.

O problema é que muita gente defende práticas ditatoriais, acredita que bandido bom é bandido morto, põe a culpa do estupro na vítima, não vê problema na tortura e quer mais é disseminar a intolerância. Tanto é assim que Flávio Bolsonaro obteve 14% dos votos na cidade que jamais seria maravilhosa com uma prefeitura em suas mãos. E há quem diga que defensor de bandido é o candidato do PSOL, mesmo que ele tenha sido ameaçado de morte pelo combate às milícias e nunca tenha se filiado ao PMDB. Mas isso é papo pra outra crônica.

domingo, 2 de outubro de 2016

Vai ser desse jeito


Machado de Assis não deixava de tratar, em suas crônicas, da importância do voto. Em 1876, disse que “70% de cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado”. Em outra crônica, de 1892, insiste no tema, estimulando o povo a votar: “não me faças ir adiante, leitor amado. Adeus, vai votar. Escolhe a tua intendência e ficarás com o direito de gritar contra ela”.

Hoje, dois séculos depois, ainda há quem vote por divertimento, sem saber por que nem o quê. São analisadas as musiquinhas, as carreatas com bandeiras e sorrisos forçados, o amigo e o familiar que se candidata a vereador e um sem número de motivos responsáveis pela permanente desmotivação política. A coisa é tão estranha que criticam a utopia sem recordar Eduardo Galeano reproduzindo o que seu amigo Fernando Birri, diretor argentino de cinema, falou em uma palestra: “a utopia está no horizonte. Sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se afasta dez passos. Quanto mais eu buscá-la, menos eu a encontrarei porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Para que serve? Pois a utopia serve para isso: para caminhar”. Negligenciam a utopia, portanto, como se ela interrompesse um caminho, quando, em verdade, é ela que nos encoraja a prosseguir.

Ontem, por exemplo, andando pela Tijuca, dei de cara com um rapaz que me sorriu e disse “Freixo prefeito”. Nos identificamos pelos adesivos. A poucos metros, ele me mostrou, estava a candidata que ganhará meu voto hoje. Fui até ela pegar material, batemos um rápido papo, uma foto registrou o encontro e ela me disse “vamos juntas!”. Se não é, já não tô nem aqui. Gonzaguinha frequentemente reforça em mim que “a gente é tanta gente onde quer que a gente vá”. Pisando firme nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos, sei que elas se cruzam se estivermos de mãos dadas. E é por querer um Rio de Janeiro feito pelo afeto e pelo cuidado que não posso conceber, dentre tantos outros fatores, a continuidade do PMDB.

Um fato curioso é ver tanta gente sem conhecer os vereadores e não saber quem deseja eleger, muitas vezes por não querer eleger ninguém, enquanto pintam tantos nomes dignos de constituir a Câmara. Eu mesma, se pudesse, votaria umas cinco vezes. A opção de não querer eleger ninguém acaba permitindo que seja eleito aquele que representa o nosso avesso, munido de toda nossa discordância e repugnância. É por isso que Machado já dizia lá no século dezenove, a respeito do eleitorado que ficou em casa em dia de eleição e apenas uma pequena minoria foi às urnas: “Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo é que é um mal, e grande mal”.

Quebremos o grande mal. Vou votar hoje à tarde porque, como o Chico, tenho muito sono de manhã. Horas depois de digitar 50 pra prefeito e 50777 pra vereadora, o único destino é a Lapa, onde mora a alegria. Vou à Lapa porque, também como o Chico, fecho com Marcelo Freixo e Marielle Franco, que estarão nos Arcos. Mudar é possível. E que venha um segundo turno construído na rua, na rede, na raça.