terça-feira, 11 de agosto de 2015

Aperta o start

Já cedo eu passava pelos Arcos naquele sábado de julho. Apreensão notória do desconhecimento, chão molhado de chuva, pés na Fundição Progresso. Só havia estado ali à noite, em qualquer show dedicado ao samba, à tristeza que balança. De lupa na Lapa, já vaguei pela Mem de Sá ao som de Moyseis Marques.

Mas naquela manhã de sábado eu divagaria. E a gente tem medo de. Alguns turistas nos Arcos, a vista do bonde, a porta aberta e o coração fechado. Timidez de falar com quem não conhece, talvez confundida com antipatia, pouco papo, leves sorrisos e ainda a apreensão. Paspalhos diante do Messiê, picadeiro à frente, cortina vermelha escondendo o espelho. Aperta o start.

Voltei pra casa com pranto no peito por ter visto Carlitos, a solidão e o amor. Em casa, abraço quem não vivo sem, falo de amizade como manifestação do amor e escrevo a quem tem meu carinho, outra forma de amor. Perdão pela repetição da palavra que Drummond mandou não ser pronunciada, leitor. Tem muito "amor" nesse parágrafo porque era só isso que eu sentia. E sinto.

Domingo, mais um dia de ver os Arcos. Chorei com meu nariz de palhaço, a menor máscara do mundo, e com a minha imagem refletida na criança que voltei a ser. Ela apareceu no espelho e me deu a certeza de que sou pequena. Como diria o principezinho de Saint-Exupéry, as pessoas grandes precisam sempre de explicações, porque nada entendem, afinal. Não se compreendem, inclusive, neste mundo de adultos que não podem ser frágeis.

Acontece que a fragilidade, quando revelada, faz de nós especiais para quem a vê. É por isso que sorrimos de imediato ao nos depararmos com o olhar puro de um bebê na nossa direção. E o que eu quero, depois de me mostrar pequena para todos, é me deparar sempre com um olhar puro na minha direção. Assim sou capaz de saber que, no meu mundo, os adultos também podem ser frágeis e, portanto, fortes porque profundamente humanos.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Das coisas que ninguém sente falta

Quando minha avó morreu, eu me dei conta de que me apego às coisas das quais ninguém sente falta. Quando eu soube que não tinha mais jeito, que ela ia embora mesmo, que eu não receberia mais sua ligação na virada do ano me desejando parabéns, abri a bolsa dela que estava na minha casa, peguei dentro outra bolsinha e retirei os poucos papéis que estavam ali, esses que a gente sempre leva junto da gente sem importar pra onde é que nós vamos.

Não ficaram comigo a bolsa e a sapatilha preta que ela usava. Só guardei as coisas que ninguém sente falta. Era uma página de um caderninho de telefone com alguns números anotados, uma foto sua com uma de minhas primas no colo, algumas fotos 3x4 – eu, o primeiro dos retratos – e, para minha maior surpresa, o convite do meu aniversário de um ano, todo colorido, festa com tema de palhaço, tudo registrado ali. Naquele dia de 1994, ela ficou desesperada ao me ver tão pequena no colo de um palhaço com pernas de pau, meu Deus, minha menininha, que perigo, desce, tira ela de lá de cima.

Foi em 2013 que eu vi esse convite na bolsa de minha avó. Caramba, ela guardava, andava com ele, só porque era meu. E chorei mais ainda. Eu chorei como nunca quando ela deixou comigo essas miudezas da vida, quando eu peguei pra mim sem motivo algum o que era só dela. E com isso eu comecei a perceber que presto atenção no miúdo, no que depois talvez ninguém lembre, no que não pretende permanecer.

Se não existisse esta crônica, é possível que ninguém soubesse o que ela sempre levava na bolsa. Eu nunca contei, nunca mostrei, só guardei como se fosse saudade objetificada. Às vezes eu também levo junto de mim o que mais ninguém precisa saber, qualquer gesto ou expressão que a alegria reconhece. E sorrio mais ainda. Eu sorrio como nunca quando vejo comigo essas miudezas da vida.