sábado, 22 de novembro de 2014

A estrutura narrativa de Vidas Secas

Com a temática da seca e um estilo sintético porque também seco, o romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, demonstra isomorfia entre forma (estilo) e conteúdo (temática). Nessa perspectiva, a exploração de uma escrita “a palo seco”, como se vê na poesia de João Cabral, constitui a completa estrutura do livro.

Cada parte da narrativa é uma representação do seu todo, havendo uma articulação entre a linguagem, os personagens, o espaço, a ação e o tema abordado. Sendo assim, esses elementos apropriam-se da seca e fazem com que ela seja a responsável pela composição da obra, de modo que tudo esteja representando o mesmo: a vida seca do sertanejo.
 
retirantes-vidas-secasNo entanto, o propósito de recorrência da ideia do seco não reduz ou empobrece a narrativa, pois, ao contrário disso, é o que possibilita seu estado de elevação e iluminação: trabalhar em torno do mesmo elemento, nesse caso, é uma maneira de indicar a unidade da obra e ratificar sua organicidade.

É a partir dessa unidade e dessa estrutura arquitetônica que podemos interpretar cada bloco narrativo como partes não tão autônomas, porque, mesmo possuindo um sentido completo, cada uma dessas partes constitui apenas uma irradiação do todo, que diz respeito, por sua vez, ao sentido pleno do livro.
 
Desse modo, a justaposição de capítulos – que se refletem porque representam o mesmo, embora de forma diferente – distancia rigorosamente a narrativa de seu modelo tradicional. Rompe-se a lógica de uma história composta por encadeamento de fatos, em que um acontecimento necessariamente leva a outro, e o que se tem, na verdade, é a impressão dos personagens, em cada bloco narrativo, acerca dos eventos.

Em Vidas secas importa, sobretudo, a reação mental do personagem e sua experiência emocional. Assim, o leitor habituado ao romance de costumes, que lê as páginas para saber somente o que acontecerá depois de algo já ocorrido, pode estranhar a estrutura do livro.

Em vez de uma única perspectiva do narrador doutrinário, portanto, o narrador de Vidas secas é multiperspectivado porque reflete, no ato de narrar, a perspectiva de um e de outro personagem, adotando, para isso, múltiplos pontos de vista.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Cruz e Souza, poeta simbolista

Cruz e Sousa, nascido em Santa Catarina, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1890 e começou a trabalhar na Folha Popular, jornal em que foram reunidos, pela primeira vez, os poetas representantes do movimento simbolista. Esse grupo de poetas, liderado por Cruz e Sousa, era contrário ao Realismo, ao Naturalismo e ao Parnasianismo, correntes já anteriormente consagradas na literatura brasileira.

Em 1893, o maior representante do Simbolismo brasileiro publica Missal, livro composto por poemas em prosa, e Broquéis, que abarca poemas em verso. Foi a partir de tais publicações, sobretudo da segunda, que ele marcou uma nova tendência literária, caracterizada pelo espiritualismo, pela subjetividade, pela musicalidade e pelo predomínio da emoção – aspectos opostos ao Parnasianismo, que cultuava o cientificismo, a exterioridade objetiva, o rebuscamento e a racionalidade.

Como aponta Raimundo Magalhães Jr. no livro Poesia e vida de Cruz e Sousa, o poeta, quando publicou Broquéis e alcançou certa visibilidade, foi bastante criticado na imprensa: Artur Azevedo, José Veríssimo, Rodrigo Otávio e Araripe Jr., por exemplo, escreveram negativamente sobre Cruz e Sousa. No embate entre os simbolistas e os adeptos das outras correntes citadas, porém, havia certa contenção por parte dos primeiros, que pertenciam a uma atmosfera mística e sutil. Enquanto estes demonstravam total antipatia à objetividade e à exatidão, os parnasianos consideravam-nos como “nefelibatas”, ou seja, como escritores que viviam nas nuvens.

Para o poeta parnasiano, de acordo com Alfredo Bosi em História concisa da literatura brasileira, “tudo pode ser dito com clareza”, porque “não há transcendência em relação às palavras”. Diferentemente disso, o simbolista Cruz e Sousa imprime à palavra a tensão entre matéria e espírito, explorando exatamente a transcendência inexistente no Parnasianismo, como se pode verificar no poema “Cárcere das almas”:

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Embora não seja o único representante do Simbolismo, é possível dizer que Cruz e Sousa seja o principal responsável pelo seu encerramento. Quando o poeta falece, em 1898, o movimento deixa de ter a organização e a força que antes possuía, mesmo permanecendo por algum tempo graças a outros escritores. A influência simbolista, contudo, acaba manifestando-se no Modernismo, que abrange um grupo, ainda que mergulhado nas novidades modernistas, vinculado a certo espiritualismo, a exemplo de Ribeiro Couto, Cecília Meireles e Tasso da Silveira.

Cabe dizer, por fim, que Cruz e Sousa, sendo um poeta negro, sofreu bastante com o racismo e, atualmente, sofre com o possível silenciamento de seus versos e de sua história, já que é muitas vezes esquecido. Nesse sentido, o estudo do movimento literário no qual ele se insere é uma maneira de valorizá-lo e de reconhecer sua grandeza não só na literatura, mas, também, na cultura nacional.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.