sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Páginas viradas


Não venho de uma família leitora, que possuía estante de livros em casa e me indicava livros para ler na infância. Meus pais, que têm outra formação, outro entendimento de mundo, trabalhavam muito para me manter na escola - fato que, além de tantos outros, me faz ser eternamente grata aos dois. E meu universo de leitura foi se construindo no ambiente escolar, ainda que nem fossem muitos os livros lidos também no colégio. Quando pequena, causava estranhamento em casa por pedir livros no Natal, ainda mais porque eu dizia não gostar daqueles com imagens, queria livros grandes, só com letras. Fui uma criança que não ligava para as histórias em quadrinhos, embora adorasse o Almanacão de Férias da Turma da Mônica, que me deixava horas colorindo desenhos. 

Lembro bem os dois livros que marcaram minha infância: "As cores de Laurinha", que vi um dia com a minha prima, era uma leitura exigida pela escola dela, e diante do meu interesse ela me deu o livro de presente, disse que já tinha lido e que não precisaria mais dele; e "O menino maluquinho", que ganhei de um primo no dia em que a família estava toda reunida na casa do pai dele - em pouco tempo eu interrompia a conversa dos adultos para dizer que o livro era muito legal. "Você já leu o livro todo? Mas você acabou de ganhar!", me disseram os adultos, espantados.

Só fui ler mais, mesmo, quando pude passar a comprar meus livros, a montar minhas estantes, a trilhar minhas metas de leitura. Desde sempre entendi que meu mundo é feito de letras, livros, palavras, papéis. São elas/eles que me ensinam, me acalmam, me intrigam, me orientam. Não à toa me formei em Letras, me tornei professora, fiz mestrado em Literatura e comecei o doutorado também em Literatura. Minha vida é virar a página.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Elefantes no céu de Piedade

Foto: Thaís Velloso

Quando criança, andava pelas ruas de Piedade sem imaginar que seus nomes poderiam ser mencionados em uma obra de ficção. No colégio, eu e meus amigos estávamos lendo, para a prova do bimestre, um livro que falava da Delfim Moreira, da Ataulfo de Paiva, de jovens, bem mais velhos que nós, andando de bicicleta pelo Leblon. Aquele cenário era muito diferente da minha realidade, e o protagonismo do bairro da Zona Sul na narrativa significava para mim que a Avenida Suburbana não tinha importância alguma em comparação com a Delfim Moreira. Eu, uma criança do subúrbio, estudando em um colégio da Zona Norte com um livro que discorria apenas sobre o Leblon, constatava que “o mundo passava longe de Piedade”, como diz o narrador do romance de Fernando Molica.

Essa distância pressupunha a ideia de cidade partida: do lado de lá estavam aqueles que poderiam protagonizar livros; do lado de cá, a gente, que deveria aprender com eles para conseguir estar do outro lado um dia. Do mesmo modo, tal condição implicava outra inferioridade, cuja explicação está na fala que Francisco, o narrador, recupera da avó: “Política, dizia, era para os grandões, não para nós, que somos pobres, moramos no subúrbio, não temos conhecimento, não temos estudo, eles é que sabem, melhor ficarmos quietos para não aguentarmos as consequências, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco”. E a lógica era – ainda é, em muitos casos – mesmo essa. Da convivência com meus avós e tios, por exemplo, que moravam também em Piedade praticamente (Quintino fica ao lado, afinal), não me lembro de qualquer comentário político, qualquer menção à época da ditadura no país.

A regra do “eles é que sabem” demonstra que o distanciamento em relação a temas políticos acaba influenciando certa simpatia pelo poder que busca a ordem, o progresso, muitas vezes confundidos com alguma melhoria na vida de uma família de classe média do subúrbio carioca: “Ditadura, como assim? Governo que mata as pessoas? Não, não é possível, você deve estar exagerando […]. Aqui em casa mesmo a mamãe fala que agora temos ordem, que os militares acabaram com a bagunça, que tudo melhorou. A loja do papai vive cheia de clientes […]. Ele conseguiu comprar esta casa, comprou o Opala…”. A visão do menino é questionada pelo primo universitário, com quem estava convivendo havia poucos dias: “Francisco, por favor, você acha que o Brasil ficou bom porque o tio comprou um Opala? Só uns poucos melhoraram de vida, primo”.

A proximidade com o primo “subversivo” faz com que Francisco comece a vislumbrar outra perspectiva sobre o regime. Somado a demais acontecimentos familiares, é esse contato afetivo, marcado pelo fato de considerar Cacá “um cara legal”, que passa a proporcionar a ele alguns questionamentos: “Talvez os comentários de Cacá sobre tortura e abusos não fossem tão mentirosos assim”; “Pela primeira vez, achava que poderia não haver um lado sempre certo nas brincadeiras de polícia e ladrão”. Tal proximidade, no entanto, não era comum em Piedade (“o caso de nossa família era excepcional, perigoso”). Ao falar de seu bairro, o narrador revela uma sintomática característica da nossa cidade, do nosso país: estar ou manter-se afastado dos acontecimentos mascarava para muitas pessoas a realidade e, consequentemente, contribuía para que elas apoiassem a ordem, repetissem chavões, engrossassem o coro, assim como acontece hoje em dia.

Por causa desse diálogo com a atualidade, mas não só por isso, “Elefantes no céu de Piedade” vale muito ser lido. É uma obra que ajuda a elucidar questões ainda confusas para nós, como o apoio de grande parcela social a governos autoritários, desumanos, cruéis com essa mesma população que lhes é favorável. Muitas vezes, a cabeça confusa de Francisco – reflexo do pensamento dos pais -, que confunde a troca do fusca pelo opala com o progresso social da nação, é a cabeça do cidadão que acompanha de longe, ou simplesmente não acompanha, os rumos políticos do país.

Ao final do romance, o narrador afirma que “memória é também construção”, mas em outro momento alerta: “É preciso ter cuidado com a construção da memória que diz respeito à história coletiva”. Enquanto é possível preencher lacunas da memória individual a partir do imaginário, uma vez que o tempo faz com que determinadas lembranças pessoais fiquem esparsas ou contraditórias, não podemos fazer o mesmo com a memória coletiva. Nesse sentido, cabe registrar o que Beatriz Sarlo comenta em seu livro Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva: “A memória foi o dever da Argentina posterior à ditadura e o é na maioria dos países da América Latina […]. A ideia do ‘nunca mais’ se sustenta no fato de que sabemos a que nos referimos quando desejamos que isso não se repita […]. Os atos de memória foram uma peça central na transição democrática […]. Nenhuma condenação teria sido possível se esses atos de memória, manifestados nos relatos de testemunhas e vítimas, não tivessem existido”.

Diante disso, “Elefantes no céu de Piedade”, ao abordar a perspectiva de uma família de classe média do subúrbio carioca a respeito da ditadura brasileira, nos faz refletir sobre a construção dessa memória coletiva e, ao mesmo tempo, salienta como é importante conhecer a história, esta escrita com inicial maiúscula, para termos consciência do significado de “nunca mais”. Não à toa Francisco passa a questionar certos pensamentos somente após conviver com alguém que posteriormente sofreria nas mãos das autoridades; não à toa Eneida, sua mãe, esboça desconfiança dessas mesmas autoridades apenas quando testemunha a forma como o irmão foi preso (“era a primeira vez que eu via minha mãe manifestar algum tipo de questionamento em relação ao governo”).

A crença na ideia de que “falar de política só traz problema, isso é com o governo, não é com a gente”, que paira sobre Piedade – representação metonímica de muitos lugares do Brasil -, permite que elefantes sobrevoem o céu daquele bairro, de outras regiões, de um país inteiro e, ainda assim, sejam ignorados. O problema, como a narrativa atesta, é que uma hora acabamos sentindo o grande peso que passa a assolar nossas vidas.

Publicado originalmente no Além de Machado.