sexta-feira, 1 de março de 2019

Para a minha cidade


Rio,

Eu te conheci saindo de uma maternidade de Marechal, subindo uma rua em Piedade, vendo confetes espalhados numa calçada da Abolição, reparando senhores jogando buraco na praça de Cascadura, espiando imagens, bichos e roupas no Mercadão de Madureira.

Fui te descobrindo, Rio, quando pisei em São Cristóvão, quando parei num balcão tijucano, quando me apaixonei na Lapa, quando subi a rampa do rubro-negro Maracanã, quando chorei uma dor calada no Sambódromo, quando andei da Rua do Rosário à do Ouvidor, quando cantei debaixo do viaduto da Mangueira, quando vi a madrugada ir embora num bar em Botafogo. 

E eu te amei todas essas vezes, Rio, além daquelas em que vibrei pelas calçadas musicais de Vila Isabel, senti saudade pelas bandas do Andaraí, vi a feira terminando na Glória, desci o Morro do Pinto acompanhando um bloco, passei a noite na Gamboa e caminhei de uma a outra ponta do Méier. 

Andei pelo Cachambi, pelas areias de Copacabana, parei na porta do Cacique, vi capoeira na Lavradio e entendi que pode ser que uma hora ou outra o amor acabe no mesmo lugar onde começou, e que eu, irrelevante diante da imensidão da cidade, sou alguém que vai por aí, com um retrato no bolso, uma saudade esquecida, um olhar de viés que tudo observa e a disposição para continuar caminhando pelas mesmas ruas cariocas que um dia me feriram ou me fizeram profundamente feliz.

Excesso de beleza me comove tanto que por vezes me causa dor. Essa cidade é minha vida inteira, corrida no rio fundo, manso e traiçoeiro que é se entregar ao que se ama. Minha cara ainda é o Rio de Janeiro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Para os homens que amei


Vieram cheios de passado
os homens que amei.
Sem que isto importasse,
talvez fosse eu a culpada
por me negar a quem chegava
sem histórias, papel em branco.

Vão agora sem que haja pranto,
depois de muito reencontro,
pouco que seja, vão andando
sem aceno, mágoa ou raiva;
quando quiserem, olhem
para trás (eu, outra, sempre
estou no mesmo lugar).

Se me ausento, é para não remoer
nem querer esquecer ou lamentar 
o que por vezes retorna, imerecido;
se sorrio, e eu sempre sorrio, 
é porque sei que fomos impulso
e que há lugares invisíveis onde
ficam guardados os meus Rios:

as ruas pelas quais passamos,
de mãos dadas, num abraço 
partido, em silêncios avulsos
ou algumas lágrimas caídas 
sob pandeiro na mesma roda
em que olho e bebo e laço.

Se foram cheios de futuro
os homens que amei.
Sem que lhes contasse,
mais futuro tinha eu: 
com um grande amor 
que parecia deles mas
no fundo era todo meu.