domingo, 21 de fevereiro de 2016

Vivendo Vinyl


Não vivi os anos 70, mas estou vivendo Vinyl. Parei pra ver o episódio de duas horas que estreou no domingo apenas na quinta-feira. Mesmo desconfiando de que viria coisa boa por se tratar de um trabalho de Scorsese e Mick Jagger juntos, assisti sem muita expectativa e sem esperar nada mais do que a temática abordaria: sexo, drogas, rock’n’roll. Só que foram duas horas de cenas que me prenderam até o fim em um piloto nem um pouco cansativo.

Embora eu não tenha vivido os anos 70, passei a conviver com um Richie Finestra sendo muito bem interpretado por Bobby Cannavale. Richie é um executivo de música que adora o que faz e, inquieto e inconsequente, enche os olhos de lágrimas ao entrar em uma casa de show pequena e ver e sentir o que uma banda fazia em cima de um palco também pequeno. Mas ali tudo se revelava grandioso aos olhos do personagem. Richie comove quando se vê diante do fracasso, como acontece no momento em que, alucinado, toca guitarra em pé no sofá da sala, faz o filho sorrir sem entender e decepciona a esposa.

Fundador e presidente da American Century Records, gravadora que no início da década de 70 corre o risco de ser vendida à PolyGram, ele tenta encontrar um meio de recuperar o sucesso de sua empresa e, ao mesmo tempo, precisa lidar com problemas pessoais que o levam a uma crise existencial. Um de seus conflitos internos, por exemplo, se refere ao caso de Lester Grimes (Ato Essandoh), um cantor de grande talento que colocou sua carreira nas mãos de Richie mas não obteve resultados satisfatórios com o empresário que se viu obrigado a abandoná-lo.

Por meio de tudo que ocorre na vida do protagonista, Vinyl explora a indústria musical por uma ótica interna proporcionada por quem acompanhou isso de perto e, portanto, contextualiza muito bem o período. Somando a experiência de Mick Jagger a características próprias de Scorsese, como as cenas violentas das quais não abre mão, a série mostra que uma flor pode nascer na rua e furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, porque revela a beleza por trás de um ambiente torpe. De alguma forma, a gente acaba vivendo os anos 70. E diante da vida que desperta em quem está assistindo, Vinyl tem tudo pra dar certo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Saia rodada

Rodavam as saias das meninas e dos meninos. Purpurinas enfeitavam o rosto, estrelas coloridas formavam constelações até então desconhecidas. Serpentinas espalhadas pelo chão e penduradas nos fios presos aos postes eram a fantasia das ruas. Continuavam a rodar as saias, um movimento que levava ao sorriso de quem acompanhava. Alguns batiam palmas, outros nem se mexiam, extasiados. As saias de meninos e meninas rodavam a roda viva de Chico, roda mundo, roda pião. Queriam voz ativa em cada saia rodada.

Dançavam tentando esquecer que pra alguns menino de saia não pode, e saia curta em menina também não. Dançavam para espantar as negativas sem sentido que tantos sopram ou gritam como se só a ordem importasse. Desordenavam a dança numa organização dionisíaca. Olhavam-se uns aos outros com muito riso, muita alegria. Crianças pediam aos pais para tocar o tambor que fazia as saias se movimentarem e rodarem a roda viva do mundo que cresce. Palhaços de rosto branco usavam a menor máscara, o nariz vermelho que não esconde nada, e surpreendiam foliões também em ritmo de tambores e vozes roucas de todo o carnaval. Todos tinham, ali, o nariz vermelho.

Em algum canto havia gente apanhando de cassetete da polícia, rodavam as saias meninos e meninas, cerveja sem patrocínio não podia, que não dava lucro pra quem já tem bastante. Uma polícia que mata tomava conta do carnaval, trazia lema e divisa e não queria deixar a gente botar o bloco na rua. A alegria incomoda. Foi assim também na festa da Penha, há tempos, quando proibiram a diversão traduzida em manifestação cultural. Mas suportaram a ausência de instrumentos na palma da mão, na caixinha de fósforo, no batuque na panela. Madame não gosta que ninguém sambe e é preciso sim discutir com madame. O lalaiá sempre resiste.

Cantando um samba, desceu a ladeira de Santa Teresa e, aos pés da Lapa, o Pierrô encontrou a Colombina. Beijos de carnaval às vezes poucos, às vezes muitos. É o céu na terra que supera a violência alheia e desfila novamente. As saias rodam, dançam coco, meninos e meninas suam e sorriem, rodam a beirada da saia, saltam, sobem, cisco no olho de quem chora. Há muita beleza na lágrima dos que choram, imersos naquela alegria. Espumas caem do alto, a cidade apaga a neblina e pinta em si um novo quadro de cores pra todo lado, formas difusas e confusas, desenhos difíceis de serem lidos. A existência humana, assim como esses desenhos, também não é fácil de ser entendida. Rodavam as saias das meninas e dos meninos. Todos tinham, ali, um nariz vermelho.