quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Saia rodada

Rodavam as saias das meninas e dos meninos. Purpurinas enfeitavam o rosto, estrelas coloridas formavam constelações até então desconhecidas. Serpentinas espalhadas pelo chão e penduradas nos fios presos aos postes eram a fantasia das ruas. Continuavam a rodar as saias, um movimento que levava ao sorriso de quem acompanhava. Alguns batiam palmas, outros nem se mexiam, extasiados. As saias de meninos e meninas rodavam a roda viva de Chico, roda mundo, roda pião. Queriam voz ativa em cada saia rodada.

Dançavam tentando esquecer que pra alguns menino de saia não pode, e saia curta em menina também não. Dançavam para espantar as negativas sem sentido que tantos sopram ou gritam como se só a ordem importasse. Desordenavam a dança numa organização dionisíaca. Olhavam-se uns aos outros com muito riso, muita alegria. Crianças pediam aos pais para tocar o tambor que fazia as saias se movimentarem e rodarem a roda viva do mundo que cresce. Palhaços de rosto branco usavam a menor máscara, o nariz vermelho que não esconde nada, e surpreendiam foliões também em ritmo de tambores e vozes roucas de todo o carnaval. Todos tinham, ali, o nariz vermelho.

Em algum canto havia gente apanhando de cassetete da polícia, rodavam as saias meninos e meninas, cerveja sem patrocínio não podia, que não dava lucro pra quem já tem bastante. Uma polícia que mata tomava conta do carnaval, trazia lema e divisa e não queria deixar a gente botar o bloco na rua. A alegria incomoda. Foi assim também na festa da Penha, há tempos, quando proibiram a diversão traduzida em manifestação cultural. Mas suportaram a ausência de instrumentos na palma da mão, na caixinha de fósforo, no batuque na panela. Madame não gosta que ninguém sambe e é preciso sim discutir com madame. O lalaiá sempre resiste.

Cantando um samba, desceu a ladeira de Santa Teresa e, aos pés da Lapa, o Pierrô encontrou a Colombina. Beijos de carnaval às vezes poucos, às vezes muitos. É o céu na terra que supera a violência alheia e desfila novamente. As saias rodam, dançam coco, meninos e meninas suam e sorriem, rodam a beirada da saia, saltam, sobem, cisco no olho de quem chora. Há muita beleza na lágrima dos que choram, imersos naquela alegria. Espumas caem do alto, a cidade apaga a neblina e pinta em si um novo quadro de cores pra todo lado, formas difusas e confusas, desenhos difíceis de serem lidos. A existência humana, assim como esses desenhos, também não é fácil de ser entendida. Rodavam as saias das meninas e dos meninos. Todos tinham, ali, um nariz vermelho.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Carta para a Jade

Jade,

em poucos dias você vai nascer. Em janeiro você chega, como eu também cheguei num janeiro de 93. Você será capricorniana como eu. Dizem que somos muito racionais -- e têm razão. Eu só aprendi que a razão não é fundamental com Machado de Assis e, na verdade, só consegui pôr isso em prática neste 2015 que está indo embora. Foi um grande aprendizado, deixou minha vida mais bonita e mais leve. Me fez feliz.

Eu te escrevo agora porque estou numa madrugada de dezembro pensando que a gente ainda não se conhece e eu já te amo. Tem pessoas que se amam sem se conhecerem, a vida tem dessas coisas. Um dia elas se (re)conhecem e descobrem as formas de amor que existem no mundo, e uma delas é a amizade. Eu desejo profundamente que você tenha amigos de confiança, que ria muito com eles, que saiba guardar seus segredos e que descubra ao lado deles o quanto a vida pode ser boa.

Você vai nascer sem saber nada sobre o nosso mundo, Jade. Seus pais vão te ensinar muito e também vão aprender bastante contigo, porque (há quem não saiba, mas eu vou contar um segredo a você) é o pequeno que guarda o extraordinário. Eu sou aquela prima (ou seria tia?) que vai conversar com você sobre miudezas e sobre assuntos pelos quais muita gente não se interessa. Eu vou te ouvir quando você quiser me contar qualquer sopro de vida, vou te aconselhar quando e se você solicitar, vou fazer você rir muito a qualquer momento -- as pessoas da nossa família riem muito comigo, você vai ver. Eu ainda não te conheço, mas já te amo. E eu gosto muito de fazer quem eu amo sorrir.

Sua bisavó, minha avó e avó da sua mãe, ria muito comigo. A gente passava tardes e tardes brincando e falando do meu futuro. Quando eu era bem pequena, um pouco maior do que você, eu cismava que seria rica. Hoje eu sei que nem preciso de tanto dinheiro, é que ele vai e volta e eu sou feita das coisas que permanecem. Um dia, quando você conversar com você mesma, vai aprender que a alegria vem com facilidade, que a verdade do seu olhar é o que proporciona a vida da sua vida.

Meu avô e o avô da sua mãe, seu bisavô, me deu um barco que, apesar de ficar guardado lá em cima do meu armário, me transporta pra um tempo que a gente chama de passado (há muita alegria no passado, quando a gente sorri lembrando é porque tá com saudade, você ainda vai sentir muito isso). Ele, seu bisavô, era uma dessas pessoas que enxergam com o coração, como meu pai, que puxou a ele. Ele tinha uma risada leve, andava a passos lentos, gostava muito de dar presente e de mocotó. O mocotó do meu avô era muito bom. Quando eu ia pra casa dele e da minha avó, seus bisavós, a gente também comia macarrão colorido no almoço e pão com mortadela no lanche. Eu adorava, Jade. Quando você estiver maiorzinha, a gente vai comer mocotó, macarrão colorido e pão com mortadela.

Eu vou torcer pra que no seu mundo, quando você estiver grande e for dona de si -- porque saiba, Jade, as mulheres são muito fortes e independentes, ainda que tentem te mostrar o contrário --, o diálogo seja mais importante que os imperativos tão presentes na atualidade. Tomara, Jade, que você possa fazer parte de um mundo que não queira jogar fora a democracia e que lute para melhorá-la a todo momento. A gente ainda vai conversar sobre isso e você, Deus queira, vai ver a beleza da esperança equilibrista. Um dia, Jade, você entenderá que somos iguais, que temos direitos, que direitos humanos são importantíssimos e que temos o dever de defendê-los.

Sei que você ainda é muito pequena pra receber uma carta grande assim, mas é que sua prima (ou seria tia?) gosta de escrever e, quando escreve pra quem ama, acaba usando muitas palavras. Às vezes sai alguma poesia até. Tomara que você goste de poesia, Jade, que você goste de ler e que entenda a revolução que as letras são capazes de promover dentro da gente.

Agora são mais de duas horas da manhã e, por mais que eu tenha insônia todos os dias, vou ficar por aqui pra tentar dormir. Quando você chegar, a gente vai se dar muito bem porque eu já te amo. Eu vou me emocionar quando te conhecer, tão pequenininha nesse mundão. Que você e eu tenhamos muita saúde, Jade, e muita vida pela frente. A gente ainda tem muito o que conversar. 

Um beijo,
Thaís.