sábado, 12 de julho de 2014

Firula inexata

Depois de comemorarmos a vitória sobre a Colômbia com dois gols dos zagueiros Thiago Silva e David Luiz e lamentarmos a lesão de Neymar sem sermos patrocinados para tal, acreditamos que a paixão, a sorte ou qualquer outro fator que não fosse técnico venceria com certa dificuldade a excelente equipe alemã. Diante do telão e dos amigos, olhei o time da Alemanha chegando ao estádio e comentei que era meio impossível vê-lo perder, mas a paixão, bem se sabe, não tá nem aí pro impossível.

O problema maior não foi a falta momentânea do craque lesionado ou do zagueiro que ficou fora do jogo devido a um cartão recebido no anterior, mas, obviamente, da inexistência constante de um meio-campo bem organizado, como muitos, com exceção do treinador, perceberam. Chorei nos minutos que declaravam a eliminação e me senti ridícula por algum tempo, mas, assim como as cartas de amor de Álvaro de Campos, não seríamos torcedores se não fôssemos ridículos.

Foi difícil dormir no dia da derrota por 7x1. Foi triste acordar no dia seguinte sabendo que não era pesadelo. Mesmo com as possíveis e positivas reflexões a serem feitas depois do que aconteceu com a Seleção, o que se pode constatar é que a CBF, tanto mental quanto estruturalmente, deve continuar a mesma, porque, utilizando as palavras do narrador machadiano em Esaú e Jacó, "nada se mudaria; o regímen, sim, era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele".

Seguindo o conselho de Almir Guineto e deixando de lado esse baixo-astral, deixo de lado também qualquer fator que transcenda a bola no pé para torcer na final em que o Maracanã não estará verde e amarelo. Evito critérios políticos e substituo o desejo alheio de não querer vitória européia em nosso território por admiração a Podolski e Schweinsteiger, novos adeptos do manto sagrado, e sobretudo ao primeiro, que aproveitou a Copa no Brasil para se encantar mais fora de campo do que dentro dele. Diga-se de passagem, é exatamente esse encantamento que falta a muitos brasileiros.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Duplo domínio

Em uma das melhores aulas que tive na Faculdade de Letras, um professor de Literatura Brasileira disse que o discurso literário é o mais completo e o mais complexo se comparado a qualquer outro, pois congrega consciência racional e experiencial emocional, diferentemente dos discursos científicos ou filosóficos, por exemplo, que se restringem à lógica e à razão. E confesso que, depois de ter me dado conta disso, estudar Literatura ficou ainda mais apaixonante.

A verdade é que fomos habituados a entender que o texto mais próximo do real é aquele que preza pela racionalidade da escrita e não permite doses de subjetivismo, de modo que, na escola, precisamos redigir textos geralmente na terceira pessoa, circunstância que é mantida na criação de monografias, dissertações e teses. No entanto, essa predileção pela razão afasta-se da realidade justamente por contemplar somente um lado da condição humana, colocando num plano inferior ou simplesmente descartando as experiências individuais de cada um e, consequentemente, suas perspectivas emocionais. Conceber o homem como puramente racional ou, do mesmo modo, como exclusivamente emocional é rejeitar uma de suas partes e, portanto, distanciar-se da realidade que diz respeito à reunião desses dois pólos.

Pois bem. Foi justamente em torno de tais opostos que giraram as discussões da semana, evidência máxima de que o futebol, assim como o discurso literário, também abarca o duplo domínio da vida humana. Mas isso é posterior ao jogo. Assistir à partida que levaria o escrete às quartas de final não foi fácil.  

Depois de noventa minutos que só permitiram um gol pro Brasil e outro pro Chile, com um gol de Hulk anulado por ter dominado a bola com o braço, os trinta minutos de acréscimo vieram e, no segundo tempo, Pinilla chutou a bola no travessão. Um alívio para os apreensivos brasileiros e uma tatuagem para o chileno. Nosso sofrimento, que parecia interminável nesses cento e vinte minutos, teve de se arrastar aos pênaltis. Neymar, que passou praticamente o jogo todo com dores na perna devido a um choque, foi escalado por Felipão pra ser o primeiro a bater, mas, diante dos fatos, bateu o último pênalti. Foi decisivo, assim como Julio Cesar, que, para a surpresa de seus tantos críticos, fez ótimas defesas. Thiago Silva desesperou-se ao ver que a disputa iria para os pênaltis e preferiu rezar, completamente frágil e emocionado. O capitão não chutou na hora de definir o placar. 

Bastou o feito para as opiniões dos torcedores serem divididas: de um lado, os defensores de uma integridade racional; de outro, os que exaltam a virtude emotiva. Concordo, decerto, que a atitude do capitão de um time seja assumir a responsabilidade e encarar a liderança do jogo. A consciência racional faria com que Thiago Silva batesse o pênalti. Mas que somos nós diante dos grandes instantes da vida? Ainda não estamos habituados com a fragilidade porque fomos adestrados aos extremos da racionalidade, mesmo que seja preciso lançar mão do fingimento para lidar com eles. A experiência emocional também tem voz. A gente é que acha que ela deve sempre fazer silêncio.

No mais, o que desejo é que essa voz transforme o choro em uma força que impulsiona e capacita. Jogaremos contra a melhor seleção da Copa, enfrentaremos James Rodríguez, que anda sendo ovacionado como se já fosse o maior craque dos últimos tempos, e teremos de torcer muito pela marcação correta de Cuadrado, o jogador colombiano que, a meu ver, oferece mais perigos do que o até então artilheiro do Mundial. Diante da pulsação apavorada de um coração que não se acalma, eu duvido muito que consigamos silenciar nossa emoção.