terça-feira, 22 de setembro de 2015

Nos botequins do Rio de Janeiro

Encontrei o Botequim de bêbado tem dono (2008) em um estande na Bienal deste ano e, assim que vi o livro escrito por Moacyr Luz e com incríveis ilustrações de Chico Caruso, não tive dúvida de que ele iria para a minha estante. As crônicas que tratam dos vinte e cinco bares apresentados combinam humor e memória afetiva para contar histórias boêmias e impregnadas de amor à cidade. Adquirir esse livro em um evento que não teve sequer uma mesa para discutir a crônica carioca ao menos serve de alento a quem é declaradamente fascinado pelo gênero.

O leitor, que a todo momento tem a agradável sensação de fazer parte de um bom papo de mesa de bar, tem a oportunidade não só de ligar-se intimamente a um traço cultural da cidade – o botequim –, mas também de receber preciosas dicas relacionadas a ele. O melhor chope, obviamente com colarinho, está no Adonis; no Momo é servido um bife a cavalo sem igual; no Costa foi descoberto um Steinhager batizado, à época, de “a mais recente relíquia de Vila Isabel”; são especiais os bolinhos de bacalhau do Paulistinha, e é lá que tem caldo de galo e roda de samba em homenagem a São Jorge.

Além disso, os pastéis de angu do Beco do Rato, as torradas ao alho do Getúlio, os filés à francesa do Lamas, os salgadinhos do Bracarense e a batida de maracujá e os torresmos do Real Chopp também merecem destaque. E por falar em destaque, o cronista chama a atenção para a excelente música do Bip-Bip e afirma que, “se o samba invadiu de novo a cidade, a retomada nasceu nas mesinhas do estabelecimento”.

Nas andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, que tem sua memória resgatada no Paladino, passamos pela Rua da Conceição, pelos becos da Lapa, pela Miguel Lemos, pela São Luiz Gonzaga e por muitas outras que guiam os passos ébrios ou ainda sóbrios aos botecos. Pra citar João Nogueira, essa “vida boêmia de bar em bar” encontrada em cada página mostra o botequim como ambiente democrático, avesso às chatas regras de boas maneiras e profundamente imerso na vida suburbana que pulsa em nossa cidade.

Voltando às particularidades de cada boteco, cabem as lembranças de que o Capela – feito para profissionais – registrou a presença de Zé Keti, Nelson Cavaquinho e Geraldo Pereira e de que no Sobrenatural Elton Medeiros cantou “Peito Vazio”. Se os bares têm tantas boas histórias, Moacyr Luz é quem tem a pena da galhofa para registrá-las. E tudo isso com as ilustrações que Chico Caruso proporciona ao final de cada crônica, captando o instante que aproxima ainda mais o leitor dos relatos reunidos no livro.

Vale dizer por fim que, neste tempo em que o jornal(ismo) agoniza e perde seus suplementos literários, a publicação semanal das crônicas de Moacyr Luz em O Dia acalenta os leitores ávidos pelos bons textos que o caráter dogmático da imprensa tem combatido.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Desenhos da infância

Lendo o texto do Verissimo que foi publicado ontem, me vieram à cabeça memórias da infância. Claro que a imagem de um cão correndo atrás do carro sem que nós saibamos com qual finalidade me traz também um saudosismo suburbano. O trecho inicial "houve um tempo em que" incita o lamento de que estamos em outra época, sem cachorros correndo atrás de carros enquanto conversamos livremente no portão de casa.

O que minha memória resgatou e sobre o que quero discorrer, no entanto, diz respeito a desenhos infantis: o Frajola correndo atrás do Piu-piu; o Coiote tramando armadilhas para colocar as mãos no Papaléguas; o Dick Vigarista querendo pegar o Pombo; o Tom desesperado para capturar o Jerry. Todos têm algo em comum: suas estratégias sempre são em vão e eles permanecem a esmo com suas tentativas frustradas.

Como bem questionou Verissimo, que faria o cão ao alcançar o carro? Comê-lo? Ninguém sabe, nem o próprio cão. E é assim que é analisado quem bate panela contra tudo. O que fazer quando o Pombo, o Papaléguas, o Piu-piu e o Jerry forem capturados? Terminar o desenho e pensar no desenvolvimento de outro capítulo? O problema é que tal capítulo deve ser previamente concebido, calculado, organizado.

Não adianta pedir organização política por meio de atos tão desorganizados, tampouco exigir respeito quando se deseja desrespeitar outra vida. Querer a volta da Ditadura sabendo o que ela significa – porque, sinceramente e lamentavelmente, a maioria dos que andam solicitando a repressão sabe bem de que se trata o regime – é um modo de calar os que conseguiram ter voz.

Latir atrás do carro sem um porquê democrático não muda conjuntura alguma, só reforça o ditado "cão que ladra não morde". E, diferentemente dos desenhos da minha infância, a vontade de anular o outro não tem a mínima graça.