sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Herói de nossa gente

Foi brincar Carnaval, em 1975, o “herói de nossa gente”. Deitado em sua rede, viu a águia portelense voar entre as árvores da floresta brasileira. Sabemos de sua história por causa do papagaio que conhecia suas frases e seus feitos e tudo revelou ao homem que ficou para nos contar.

Mário de Andrade acocorou-se em cima de umas folhas, ponteou na violinha e botou a boca no mundo para cantar na fala impura o que viveu Macunaíma. E foram Davi Corrêa e Norival Reis que fizeram um samba de enredo para que ele saísse das páginas de um livro fechado para encantar sua gente a céu aberto.

O anti-herói, que desde cedo manifestou sua preguiça e passou a demonstrar sua personalidade travessa, foi abandonado pela mãe e engravidou Ci, que perdeu o filho e virou estrela, deixando um talismã com Macunaíma. Numa rapsódia cujo enredo se desenvolve em torno do “muiraquitã”, o talismã que lhe foi dado por Ci e que ele precisava resgatar por tê-lo perdido em uma briga, o “herói sem nenhum caráter” foi atrás de Piaimã, o gigante que ficou com seu amuleto, mas não obteve sucesso na recuperação do objeto.

Macunaíma reúne o folclore brasileiro e as ideias das vanguardas europeias, representação do Modernismo na literatura nacional. É, assim, identidade por muitos desconhecida, é encontro de raças e é símbolo de cultura.

Sendo a reunião disso tudo, o “filho do medo da noite” desemboca no carnaval carioca, essa enorme manifestação cultural, e, além de se tornar constelação, fica também sendo responsável por um dos nossos sambas mais bonitos – defendido, na Avenida, por Clara Nunes –, que rendeu à Portela o primeiro Estandarte de Ouro em samba de enredo, a segunda vitória do hoje recordista Davi Corrêa.

Por ele ter ido morar no infinito, por ter virado constelação, Mário de Andrade chorou, e confessou isso numa carta enviada a Álvaro Lins: “pouco importa, si muito sorri escrevendo certas páginas do livro: importa mais, pelo menos pra mim mesmo, lembrar que quando o herói desiste dos combates da terra e resolve ir viver ‘o brilho inútil das estrelas’, eu chorei”.

Foi com uma constelação que a Portela, quinta colocada naquele ano, encerrou o desfile, reafirmando tudo o que o autor do livro sentiu, principalmente, na criação dos últimos capítulos. A azul-e-branco mostrou que Macunaíma brilha e comove, assim como resplandecem e encantam as grandes miudezas das nossas gentes.

Publicado originalmente no Ouro de Tolo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Cento e setenta e sete anos

Não cabia naqueles olhos de menina tamanha grandeza. Precisava da ajuda de outras vistas pra conhecer o Pedro II. Era deslumbramento o que acontecia. Espanto. Será que alguma vez se perderia ali dentro? Como seria capaz de conhecer tanto lugar num lugar só? Quem chamaria, se não soubesse onde estava? Não deixava de ser uma viagem em busca do desconhecido.

Fila pra cantar o hino. Um hino do próprio Colégio? Outra vez deslumbramento. Às vezes o som silenciava como se a roda do relógio não estivesse girando. Tempo correndo sem pressa. Acelerado o tempo, o coração. Tempo de outra vida, passando depressa. Vamos, meninos, vamos subir a rampa para ir às salas. Daqui a pouco as aulas começam. Mais uma vez espanto. Eram outras vistas que a ajudavam a enxergar o que ainda não cabia de todo na sua.

Passaram os dias. Batidas na porta da frente. Soube o que é ter histórias engraçadas pra contar. Apaixonou-se. O desconhecido da vida se apresentava ali. A amizade, o carinho, a admiração e o respeito foram aprimorados. Subiu as escadas do pátio, a rampa pra Unidade III. Espanto não mais havia, mas deslumbramento, sim. A todo momento. 

Outra vida? Mesma vida, novo olhar. As responsabilidades e as decisões se aproximavam. Um dia, afinal, a gente acaba tendo de pôr um ponto no curso do rio. Mas escolhera botar mais dois pontos. Queria a terceira margem. Era muito apegada ao que não acaba, ao que permanece, ao que continua com as reticências. Amou. Ficou por vezes sentada no banco do pátio, entre os pombos, vendo como era bom não ver o tempo passar. E ele corria. Aulas e aulas que poderiam ser repetidas, ela nem se importava. Queria mesmo que fossem. Manhãs de alegria e tardes de alegria. Noites de recordação. Já sabia andar por qualquer parte do que não mais era desconhecido.

Despediu-se no dia 22 de dezembro de 2010, no Teatro Mário Lago. Era preciso percorrer outros caminhos. O conjunto das estrelas havia acabado. Mas, repare, as constelações, elas não deixam de aparecer toda noite no céu. E era assim que amava. Uma luzinha voltava sempre a reacender o que havia sido atenuado. Alumbramento. Retornou quatro anos depois para redescobrir o brilho da vida e colocou de novo as reticências.

Seus olhos, hoje, conhecem todo o espaço e abraçam o Colégio inteiro, mas, por isso mesmo, o que cresceu desmesuradamente foi o amor pela Instituição. E é ele, agora, o que, apesar de caber no olhar, transborda no coração. 

Cento e setenta e sete anos. Obrigada, Pedro II.